
Uma universidade sem doutores, sem diplomas, sem fronteiras. O nome, Barefoot. Em português, Pés Descalços. Criada há 40 anos pelo educador Bunke Roy, a instituição segue os princípios e ensinamentos de Mahatma Gandhi. Todos sentam, comem e trabalham no chão. A universidade forma médicos, dentistas, engenheiros solares. Gente que durante seis meses aprende as técnicas da profissão para aplicar em lugares onde as pessoas realmente necessitam. “Nós damos a eles um pouco de habilidade, conhecimento, sabedoria que eles possam aplicar quando retornam para suas comunidades”, diz o fundador da instituição. “Oferecemos habilidades práticas que são úteis para melhorar a vida das pessoas pobres que vivem com menos de um dólar por dia.”
Atualmente, a universidade atende 250 alunos locais, além de outros 40 vindos de oito países. A instituição tem dois campi e em cada um deles oferece diferentes tipos de formação. Ambos receberam a visita da comitiva catarinense que conheceu o trabalho das chamadas avós solares. Cada uma delas foi selecionada pelo próprio fundador da universidade e receberam este nome devido ao tipo de tecnologia com a qual trabalham. A escolha delas tem motivo: mulheres nessa idade dificilmente deixam as vilas onde moram para procurar emprego nos grandes centros. Em vez disso, reproduzem os conhecimentos em benefício da própria comunidade. Todos os custos são arcados pelo governo indiano, que paga ainda cem dólares mensais para cada uma delas. Para a deputada Dirce Heiderscheidt (PMDB), o investimento faz parte do processo de inclusão. “O que me chamou a atenção durante toda essa nossa trajetória aqui na Índia foi a exclusão das mulheres e esse projeto mostra justamente a inclusão delas no mercado de trabalho. Chama atenção o fato de serem mulheres de mais idade e a vontade do fundador de expandir essa iniciativa para outros países”, destaca a parlamentar.
O resultado dessa expansão está em turmas como a que reúne representantes de países como Uganda, África do Sul e Ilhas Fiji. Mesmo com os desafios do idioma, elas aprendem juntas técnicas de montagem das lanternas que funcionam a partir da energia solar. Em seis meses, cada uma delas é capaz de produzir 200 unidades sem nunca ter conhecido antes o funcionamento de um circuito. O trabalho já levou energia para mais de 100 mil pessoas de quase 600 comunidades. E chamou a atenção da pedagoga suíça Sonia Dougal, que vê no sistema de ensino dos pés descalços a quebra dos padrões educacionais. “A mensagem por traz disso é: nós estamos julgando as pessoas por nada”, diz ela. “Não estamos dando nenhuma possibilidade de elas descobrirem seu potencial porque nós temos métodos de ensino nas escolas e universidades que privilegiam aqueles que trabalham o lado esquerdo do cérebro. Essa iniciativa pode nos dar a chave para mudar o sistema e torná-lo muito, muito melhor.”
O trabalho desenvolvido pelos 300 voluntários pés descalços ganhou o reconhecimento de outros profissionais, especialmente pela utilização de energias limpas e a preocupação com o reaproveitamento de recursos como a água. Em Tilônia, onde fica a universidade, a ocorrência de chuvas se resume a dois meses do ano. A ideia agora é reproduzir essas experiências em alguma comunidade brasileira. Para o chefe da comitiva catarinense, deputado Jailson Lima (PT), é a chance de levar formação e informação para quem mais necessita delas. “Acho que aqui a gente veio aprender muito e o Brasil pode ajudar, contribuir com essa experiência, levando essa iniciativa a todas as comunidades carentes”, enfatiza o parlamentar. (Jucinei Cardoso)

