Comunicação

Do esporte à presidência: Jucilene Homem transforma experiência de vida em luta pela inclusão na Aflodef


Valquíria Guimarães
23/09/2026 - 08h23min

Jucilene Homem, presidente da Aflodef.

Jucilene Homem, presidente da Aflodef.

Foto: Arquivo pessoal

Ex-atleta de basquete em cadeira de rodas, a primeira mulher a assumir a presidência da entidade defende que pessoas com deficiência sejam ouvidas na construção de políticas públicas e destaca o esporte como instrumento de transformação social

A história de Jucilene Homem, 48 anos, com a Associação Florianopolitana de Deficientes Físicos (Aflodef) começou dentro de uma quadra de basquete. Antes de assumir a presidência da entidade, ela construiu uma trajetória de 23 anos no esporte paralímpico, experiência que ajudou a moldar sua visão sobre inclusão, autonomia e direitos das pessoas com deficiência.

O primeiro contato com a Aflodef, no entanto, aconteceu como adversária. Jucilene integrava outra equipe de Santa Catarina e encontrou a entidade nas competições. Anos depois, em 2016, o então presidente da Aflodef, Zezinho, a convidou para integrar a instituição, inicialmente no departamento de esportes.

Foi a partir daquele convite que começou uma nova etapa de sua trajetória.

Retrato de Jucilene Homem Foto: Acervo pessoal
“Minha história com a Aflodef começou em 2011, mas eu não trabalhava na entidade. Fui atleta de basquete em cadeira de rodas durante 23 anos da minha vida. Nosso primeiro contato foi dentro da quadra, como adversários, porque eu jogava em outra equipe de Santa Catarina”, relembra.
Jucilene Homem Presidente da Associação Florianopolitana de Deficientes Físicos (Aflodef)

O convite de Zezinho abriu caminho para que Jucilene levasse para dentro da Aflodef a experiência acumulada no esporte e, posteriormente, assumisse responsabilidades cada vez maiores na entidade.

Hoje, mesmo não atuando mais como atleta, ela continua ligada ao basquete e é auxiliar técnica do professor Pedro, que coordena a equipe da Aflodef. A relação com o esporte permanece marcada por uma forte conexão pessoal.

“É uma paixão. Na minha visão, o esporte mudou a minha vida. Então, o esporte ainda é uma ferramenta de transformação social muito poderosa, não só para a pessoa com deficiência, mas para a sociedade como um todo”, afirma.
Jucilene Homem Presidente da Associação Florianopolitana de Deficientes Físicos (Aflodef)

“Precisam nos ouvir”

Primeira mulher a assumir a entidade, Jucilene também transformou sua experiência pessoal em uma defesa permanente pela participação das pessoas com deficiência na formulação das políticas públicas. Ela esteve à frente da instituição até 2025.

Para Jucilene, não basta criar ações destinadas a esse público. É fundamental ouvir quem vivencia diariamente as barreiras de acessibilidade, mobilidade e inclusão.

Retrato de Jucilene Homem Foto: Acervo pessoal
“As pessoas que tomam conta das nossas políticas públicas precisam nos ouvir. Muitas vezes são tomadas decisões sem o nosso consentimento. Ninguém perguntou para a gente se seria bom ou ruim”, defende.
Jucilene Homem Presidente da Associação Florianopolitana de Deficientes Físicos (Aflodef)

Ela também utiliza uma metáfora para traduzir o atual momento da luta pelos direitos das pessoas com deficiência. Segundo ela, os avanços conquistados ao longo dos anos representam uma passagem do inverno para a primavera, mas essa primavera ainda não floresceu por completo.

“A nossa primavera ainda não chegou. Ela ainda está adormecida. Nós, pessoas com deficiência, estamos aguardando essa primavera chegar para florescer os nossos direitos e para o olhar da sociedade mudar perante a pessoa com deficiência.”

Na sua avaliação, um dos principais obstáculos ainda é o capacitismo — o preconceito e a discriminação baseados na deficiência. Ela defende uma mudança de perspectiva para que as pessoas não sejam julgadas por suas limitações, mas reconhecidas por suas capacidades e pelo que têm a oferecer.

Da diversidade à inclusão

Para Jucilene, o Brasil avançou significativamente nas últimas décadas, especialmente quando se considera a realidade vivida pelas pessoas com deficiência no passado. Mas ainda existe uma distância importante entre os direitos garantidos e aquilo que acontece efetivamente no cotidiano.

“Nós estamos muito longe do nosso sonho ideal. Melhorou muito. Para mim, que nasci em 1978, chegar a 2026 com alguns avanços e conquistas é importante. Mas ainda precisamos fazer com que a população, a sociedade, abrace a nossa causa. E isso ainda não aconteceu, infelizmente.”

Ela acredita que essa mudança passa, sobretudo, pela convivência e pela compreensão das barreiras que uma pessoa com deficiência enfrenta diariamente.

“Um pequeno degrau pode representar uma dificuldade enorme de locomoção. A ausência de uma rampa pode impedir o acesso a um espaço público ou de lazer. São obstáculos que, para quem não vivencia essa realidade, muitas vezes passam despercebidos.”

Acessibilidade beneficia toda a sociedade

Jucilene também chama atenção para um aspecto frequentemente esquecido no debate sobre acessibilidade: as adaptações não beneficiam exclusivamente as pessoas com deficiência.

“Quando a gente fala de acessibilidade, não está falando só para a pessoa com deficiência. Está falando para o idoso, para uma mulher grávida, para alguém que está com uma limitação temporária”, explica.

Ela lembra que qualquer pessoa pode, em algum momento da vida, sofrer um acidente, machucar o pé, precisar de muletas ou utilizar uma cadeira de rodas durante um período de recuperação.

Por isso, na visão dela, pensar em acessibilidade significa construir uma sociedade preparada para diferentes necessidades e para as diversas fases da vida.

A trajetória de Jucilene dentro da Aflodef traduz justamente essa transformação. A atleta que conheceu a entidade como adversária passou a fazer parte dela, levou sua experiência esportiva para o trabalho, assumiu responsabilidades e chegou à presidência.

Sua história também ajuda a explicar a importância da própria Aflodef: um espaço que reúne esporte, convivência, trabalho, autonomia e defesa de direitos, mas que, acima de tudo, permite que pessoas com deficiência sejam protagonistas das decisões e das mudanças que dizem respeito às suas próprias vidas.

A vida de Antônio Gerônimo na Aflodef

Há 20 anos, Antônio Gerônimo chegava à Aflodef sem imaginar que encontraria na associação não apenas uma oportunidade de trabalho, mas também uma nova profissão e um espaço onde poderia desenvolver suas habilidades. De serviços gerais, hoje ele é o encarregado da Oficina de Manutenção e Reparos da entidade.

Antônio Gerônimo na Oficina de Manutenção Foto: Igor Valentim Silveira / Agência Alesc

Há 20 anos, Antônio Gerônimo chegava à Aflodef sem imaginar que encontraria na associação não apenas uma oportunidade de trabalho, mas também uma nova profissão e um espaço onde poderia desenvolver suas habilidades. De serviços gerais, hoje ele é o encarregado da Oficina de Manutenção e Reparos da entidade.

“Eu fui convidado pelo então presidente da entidade, Zezinho, já falecido, a trabalhar na oficina de cadeiras de rodas”, revelou, comentando que a proposta surgiu de forma inesperada. Antônio estava prestes a deixar a Aflodef quando recebeu o convite.

“Antônio, amanhã tu vai trabalhar na oficina”, contou ele ao relembrar o convite.

A resposta foi sincera: Antônio não entendia nada de cadeiras de rodas. Sua experiência estava principalmente relacionada a bicicletas e serviços mecânicos. Mesmo assim, Zezinho insistiu.

“Eu falei para ele que não entendia nada de cadeira de rodas. Eu entendia mais de bicicleta. Mas ele disse: ‘Tu vai lá para a oficina. Tu é teimoso e eu sei que tu vai aprender’”, lembra Antônio.

E foi o que aconteceu. No início, o trabalho era completamente novo. Trocar um pneu de bicicleta e substituir uma peça de uma cadeira de rodas eram atividades muito diferentes. Antônio precisou aprender na prática, conhecendo cada equipamento, suas peças e mecanismos.

Hoje, depois de aproximadamente uma década na oficina, ele reconhece que ainda descobre coisas novas.

A experiência acumulada fez com que Antônio se tornasse uma das referências na manutenção dos equipamentos da associação. Ele trabalha principalmente com cadeiras de rodas convencionais, realizando reparos, trocas e ajustes. Também conhece o funcionamento básico das cadeiras motorizadas, embora reconheça que os sistemas eletrônicos exigem conhecimentos específicos.

Mesmo diante das dificuldades, o trabalho se tornou uma parte importante de sua rotina e de sua vida. Antônio conta que sempre gostou de trabalhar com as mãos. Em casa, também costuma estar envolvido com alguma atividade, seja montando, consertando ou costurando. Na oficina da Aflodef, encontrou um ambiente onde essa habilidade ganhou um novo significado.

Mais do que aprender uma profissão, a trajetória na associação representa uma história de confiança e oportunidade. Foi a insistência de Zezinho que fez Antônio aceitar o desafio quando ainda não dominava o serviço. A partir dali, veio o aprendizado construído ao longo dos anos, peça por peça, cadeira por cadeira.

A história de Antônio revela, assim, uma das dimensões do trabalho desenvolvido pela Aflodef: a capacidade de oferecer não apenas serviços e suporte às pessoas com deficiência, mas também oportunidades, convivência, aprendizado e novas perspectivas para quem faz parte da entidade.

Na oficina, Antônio encontrou um lugar para colocar em prática aquilo que sempre soube fazer: consertar, adaptar, descobrir soluções e, principalmente, aprender. “Aprende todos os dias”, resume.

Antônio Gerônimo na Oficina de Manutenção e Reparos da Aflodef

Antônio Gerônimo na Oficina de Manutenção e Reparos da Aflodef

Foto: Igor Valentim Silveira / Agência Alesc

Com mais de 8,6 mil usuários cadastrados, Aflodef amplia inclusão e autonomia de pessoas com deficiência em SC

Há mais de quatro décadas, a Associação Florianopolitana de Deficientes Físicos atua na promoção da inclusão social, da autonomia e da cidadania das pessoas com deficiência física em Santa Catarina. Fundada em 15 de abril de 1985, a entidade chegou a 2025 com 8.623 usuários cadastrados, provenientes de diferentes regiões do estado, e uma rotina de mais de 85 atendimentos diários.

Sem fins lucrativos, a Aflodef desenvolve ações que abrangem áreas essenciais das políticas públicas, como assistência social, saúde, educação, mobilidade e esporte. A atuação busca responder a demandas que vão desde o acesso a equipamentos de tecnologia assistiva e transporte adaptado até orientação sobre direitos, acompanhamento familiar, habilitação e reabilitação.

Os números de 2025 dimensionam a importância desse trabalho. Somente o Projeto Porta a Porta, vinculado à Secretaria Municipal de Assistência Social de Florianópolis, contabilizou 5.186 atendimentos ao longo do ano. A iniciativa tem como objetivo garantir transporte adaptado a pessoas com deficiência física que vivem em regiões onde o transporte público convencional é insuficiente ou inexistente.

A meta estabelecida para o programa é de 500 atendimentos mensais, permitindo o deslocamento dos usuários para serviços de saúde, atendimento previdenciário, bancos, atividades de lazer e outros espaços de participação social. O projeto também contribui para ampliar a autonomia e a independência dos beneficiários.

Ainda na área de mobilidade e acesso às políticas públicas, foram realizadas 36 visitas domiciliares pelo Porta a Porta. Na área da saúde, a Aflodef registrou 710 atendimentos em 2025, enquanto o serviço de transporte destinado à educação contabilizou 2.060 atendimentos no período.

Outro eixo importante é o Serviço de Habilitação e Reabilitação, que atende atualmente 38 pessoas com deficiência física, divididas em dois grupos de 19 participantes. A proposta é contribuir para o desenvolvimento das habilidades, a recuperação da autonomia e o fortalecimento da participação social dos usuários.

Tecnologia assistiva garante autonomia

A inclusão também passa pelo acesso a equipamentos adequados e em boas condições de uso. Em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis, a Aflodef mantém uma Oficina de Manutenção e Reparos de equipamentos de tecnologia assistiva.

Em 2025, foram registrados 262 atendimentos de manutenção e revisão de equipamentos. A oficina também recupera itens doados para que possam ser reutilizados por outras pessoas com deficiência.

No mesmo período, a Associação contabilizou 313 empréstimos e cessões de uso de equipamentos, entre eles cadeiras de rodas, muletas, botas ortopédicas, camas hospitalares, cadeiras de banho e bengalas. Os itens são disponibilizados gratuitamente, em regime de comodato, conforme a necessidade dos usuários.

A iniciativa representa uma importante ação de inclusão, especialmente para pessoas em situação de vulnerabilidade social, ao reduzir barreiras de acesso a equipamentos indispensáveis à mobilidade, à segurança e à independência.

Assistência social vai além do atendimento na sede

O trabalho da Aflodef também envolve acolhimento, orientação e acompanhamento de pessoas com deficiência e seus familiares. O Serviço Social recebe demandas espontâneas e referenciadas, com atendimentos individuais, familiares e visitas domiciliares.

Entre as ações estão empréstimos de equipamentos, escuta qualificada, acompanhamento familiar, grupos psicossociais, orientação sobre direitos e benefícios e encaminhamentos para as redes de assistência social, saúde, educação e serviços jurídicos.

Em 2025, as ações de apoio social também incluíram a distribuição de 243 sacolas de alimentos perecíveis, como frutas e verduras, além de 19 cestas básicas, 50 aves natalinas e 17 atendimentos relacionados a itens de higiene, incluindo fraldas.

Mais do que contabilizar atendimentos, os números revelam a dimensão de uma rede de proteção que busca reduzir barreiras e ampliar as possibilidades de participação social das pessoas com deficiência.

Quatro décadas de atuação pela inclusão

Reconhecida como entidade de utilidade pública municipal, estadual e federal, a Aflodef possui uma trajetória iniciada em 1985 e consolidada ao longo de mais de 40 anos de atuação. A entidade também é reconhecida como Entidade Beneficente de Assistência Social Federal.

Sua atuação está alinhada aos princípios da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), que estabelece direitos e garantias para assegurar condições de igualdade, exercício da cidadania e participação social.

Ao articular serviços, projetos, poder público, famílias e instituições parceiras, a Aflodef ocupa um papel estratégico na política de inclusão social. Os 8.623 usuários cadastrados e os milhares de atendimentos realizados somente em 2025 mostram a dimensão dessa demanda e reforçam a importância de políticas permanentes voltadas à acessibilidade, mobilidade, saúde, educação, assistência social e autonomia.

Com mais de quatro décadas de história, a Associação se consolida como uma referência na defesa dos direitos e na promoção da qualidade de vida das pessoas com deficiência física, transformando serviços de atendimento em oportunidades concretas de autonomia, cidadania e inclusão social.

Aflodef em Números

O impacto de mais de quatro décadas de atuação em Santa Catarina

8.623
Usuários Cadastrados

Pessoas com deficiência atendidas em diferentes regiões do estado até 2025.

40 anos
De História e Inclusão

Promovendo autonomia e cidadania desde sua fundação em abril de 1985.

5.186
Atendimentos em Transporte

Realizados anualmente pelo Projeto Porta a Porta para garantir mobilidade.

313
Empréstimos de Equipamentos

Cadeiras de rodas, muletas e camas disponibilizadas gratuitamente em regime de comodato.

2.060
Transportes na Educação

Atendimentos contabilizados pelo serviço destinado ao acesso estudantil.

262
Reparos de Tecnologia Assistiva

Manutenções registradas na oficina própria da entidade para garantir o uso seguro.

Design: Milene Conci / Agência ALESC

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