
Os cinco anos do Programa Antonieta de Barros (PAB) foram celebrados em uma sessão especial marcada pela emoção. Jovens que passaram pelo programa de estágio, criado em 2003 e transformado em lei no ano de 2004, deram relatos da importância de trabalhar na Assembleia Legislativa. Esta é mais uma política de ação afirmativa da Casa, que atende a uma demanda reprimida de uma parcela da sociedade vulnerabilizada pela violência. O PAB foi concebido com o objetivo de incluir nas relações de trabalho jovens marginalizados, caracterizados pelo ambiente em que vivem, raça, maternidade e/ou paternidade precoce, ou, ainda, necessidades especiais.
Durante a sessão foi exibido um vídeo produzido pela TVAL e que mostrou a realidade de alguns dos jovens que participaram do programa. Os relatos, as lágrimas e o orgulho dos familiares que participaram do evento ressaltaram a necessidade de abrir as portas para jovens que não tinham perspectivas de uma vida diferente, mas que, agora, sonham com uma universidade e com um trabalho bem remunerado e reconhecido, diferente da situação de seus pais ou de seus vizinhos.
Richard Goterra, estagiário da Gráfica da Assembleia, subiu à tribuna para representar todos os estagiários que participaram ou ainda participam do programa. O jovem agradeceu a oportunidade de fazer parte da equipe de funcionários da Casa e ressaltou que “é bom saber que existe uma saída para pessoas marcadas pela exclusão e a escravidão”. Ele falou sobre o aumento da violência nas comunidades da periferia da Capital, onde jovens negros estão morrendo ou sendo mortos pelas drogas. “Lares e famílias estão sendo destruídos. As crianças estão vendo no crime uma possibilidade de renda, mas não veem uma perspectiva de vida. Nós somos grandes árvores e podemos dar bons frutos”, incentivou.
Mário Davi Barbosa, que fez parte do programa e hoje cursa a faculdade de Direito, acredita que o PAB é a mostra de que todos podem alcançar um bom futuro. “A maior dificuldade que passamos desde crianças é acreditar que a gente não pode, que não vai chegar a outro lugar. Então, o programa vem mostrar que a gente pode e como iguais. Temos que olhar no espelho e não esquecer, nunca, que devemos e devemos muito”, disse referindo-se aos seus antepassados escravos.
Segundo Mário, é fundamental reconhecer a diferença, mas sabendo que não é um pressuposto para que negros sintam-se inferiores. “Não somos inferiores, somos diferentes”, observou.
A responsável pelo programa desde 2005, coordenadora de Estágios Especiais, Marilú Lima de Oliveira, declarou, entre lágrimas, que assumiu a Coordenadoria de Estágios Especiais sem saber se tinha competência para levar os trabalhos adiante. “Foi muito penoso, mas foi com muito amor, bondade e carinho. E não estive sozinha. Queria agradecer a todos os colegas pela oportunidade, pela manifestação política do poder Legislativo por atender este pleito e implementar esta política, e a todos do PAB por hoje termos a certeza da nossa capacidade”, finalizou.
A primeira coordenadora do PAB, Jeruse Gusmão, participou da comemoração e foi uma das homenageadas da noite. Ela explicou que o programa começou com um recorte étnico, pois foi idealizado por mulheres que faziam parte do Fórum de Mulheres Negras, e durante o processo de construção foram incluindo meninos e meninas com necessidades especiais, pais e mães precoces, endereços marginalizados e estudantes de escolas públicas. “Os nossos objetivos foram cumpridos. São os jovens que escolhem onde querem trabalhar. O programa atua em dois eixos fundamentais: o primeiro é entender que nós também fazemos parte de grupo conhecido como “outros”, o segundo trabalha com o talento de cada um, que não podem viver somente na marginalidade. Vocês têm que entender que o bem público também é de vocês e que vocês também fazem parte da sociedade”, encorajou.
O deputado José Natal Pereira (PSDB) falou em nome dos partidos com assento no Legislativo catarinense. Ele acredita que a Assembleia Legislativa é uma referência na política nacional. Também falou que o PAB é uma luz, um lugar que insere o jovem no civismo, na política e na sociedade. “Quero enaltecer o comprometimento total dos funcionários desta Casa ao receber essa garotada e dizer que estão aqui para auxiliar e confirmar que é possível. As famílias são peças fundamentais para esta realidade. Queria que viessem por uma situação de Justiça e não de vulnerabilidade”, ressaltou.
Já o deputado Jailson Lima (PT), que presidiu a sessão, mencionou que a Casa do povo, como o Parlamento é conhecido, não reflete a realidade da população em seu dia-a-dia. “Nosso estado foi colonizado, em sua grande maioria, por europeus, mas foi construído na raça guerreira da negritude. Tenho convicção de que esta é uma sessão especial, porque temos aprendido mais com vocês do que vocês conosco. A Assembleia sente-se honrada por esta sessão, nesta noite primorosa, que não nos deixará esquecer que é possível tocar o céu”, declarou.
Termo de cooperação
O presidente da Casa, deputado Jorginho Mello (PSDB), não pôde participar da sessão, mas deixou uma mensagem aos jovens. Disse que o PAB tem dado certo há cinco anos e isso é um reflexo do comportamento guerreiro da coordenadora Marilú e dos demais abnegados que passaram pelo programa. Jorginho também falou sobre o termo de cooperação assinado com a União dos Vereadores de Santa Catarina (Uvesc). O acordo permitirá que o Programa Antonieta de Barros seja adotado em todas as câmaras municipais de Santa Catarina. “Este é um programa que vale a pena, é um bom exemplo que deve ser aplaudido. Sou um apaixonado pelo PAB, porque vem resgatar os que realmente precisam. O primeiro passo precisa ser dado, o segundo e o terceiro a gente tenta dar”, justificou.
De acordo com o representante da Uvesc, Neilor José Rodrigues, o PAB não é o início, nem o fim, mas o meio para que se tenha um pouco de justiça social no Brasil. “O termo assinado entre as duas instituições é muito importante. Tanto que deveria ser aplicado em todas as câmaras e assembleias legislativas do país e também no Congresso Nacional. Isto que estamos vendo aqui é um ato inédito e muito auspicioso. Não vamos conseguir pagar nossa dívida com vocês, oriundos de Zumbi. Mas podemos reconhecer que este lugar é de fato e de direito de vocês, que colonizaram e construíram este país”, encerrou. (Denise Arruda Bortolon Montagna/Divulgação Alesc)
Critérios
O programa estabelece critérios para que os jovens integrem o quadro de estagiários da Casa:
• jovens com idade entre 16 e 24 anos;
• regularmente matriculados no ensino médio ou superior;
• renda familiar menos ou igual à 2,5 salários mínimos;
• vulnerabilidade na localidade de moradia;
• condição étnica;
• gênero; e
• pessoas com deficiência.
Homenageados:
• Marilú Lima de Oliveira;
• Volnei Morastoni;
• Nazarildo Knabben;
• Angela Aparecida Bez;
• Walter da Luz;
• Ivone Maria Perassa;
• Uda Gonzaga;
• Jeruse Romão;
• Vera Fermiano;
• Marcos Caneta;
• Romário da Silva;
• Zulmar Hermógenes Saibro;
• Almir Elcir Manoel; e
• Eloisa Barbosa
Diploma aos ex-estagiários do PAB
• Rudval Bittencourt, representando a turma de 2003
• Cléber Bittencourt, representando a turma de 2004
• Silmara Regina da Rosa, representando a turma de 2005
• Ariana Barbosa, representando a turma de 2006
• Críchyna da Silva Madalena, representando a turma de 2007
• Jéssica Farias Morruda, representando a turma de 2008

