Comunicação

Seminário em Joinville reúne especialistas para debater altas habilidades no contexto educacional


Evento promovido pela Comissão de Educação e Cultura da Alesc reuniu especialistas em Joinville para discutir identificação, atendimento educacional e direitos de estudantes com altas habilidades ou superdotação.

Alexandre Back
15/06/2026 - 13h54min

Seminário em Joinville reúne especialistas para debater altas habilidades no contexto educacional

Foto: Rodrigo Corrêa / Agência Alesc

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Altas habilidades em debate

Embora conte com cerca de 1,77 milhão de estudantes matriculados, Santa Catarina identifica e atende pouco mais de 3,5 mil alunos com altas habilidades ou superdotação (AH/SD).

O montante, que corresponde a 0,20% do total de alunos, está muito abaixo das estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), que apontam uma incidência de cerca de 3% da população, e das projeções do Ministério da Educação (MEC), que variam entre 5% e 15%.

Os dados, relativos a um levantamento de 2025 do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), foram apresentados durante um seminário promovido pela Comissão de Educação e Cultura da Assembleia Legislativa, nesta segunda-feira (15), para debater o tema.

O evento aconteceu na UniSociesc, em Joinville, e reuniu especialistas para debater estratégias de identificação, atendimento educacional e garantia de direitos a este segmento da população.

O deputado Fernando Krelling (MDB), que coordena a Frente Parlamentar de Altas Habilidades ou Superdotação e propôs a realização do seminário, afirmou que a proposta é difundir informações sobre AH/SD entre a sociedade e capacitar profissionais da educação.

“O nosso seminário é com esse intuito, de fortalecer cada vez mais a educação básica, capacitar os profissionais, acolher as famílias e fazer com que a gente consiga avançar bastante na educação inclusiva. Não apenas no processo de ensino e aprendizagem, mas também na empatia, no acolhimento e no entendimento da causa.”

Outro objetivo, disse, é que o debate dê origem a novas políticas públicas voltadas a esta parcela da população escolar.


“Este é um tema antigo, mas que ainda é relativamente novo para o poder público, já que são as famílias que vivenciam essa realidade diariamente. A partir de agora, queremos avançar cada vez mais, fazendo com que o Estado de Santa Catarina amplie seu olhar sobre essa questão, que também exige sensibilidade e empatia. É fundamental que nos coloquemos no lugar do outro e, principalmente, que desenvolvamos ações em benefício dessas pessoas e desses estudantes, valorizando e potencializando talentos que não podem ser desperdiçados.”
Fernando Krelling
Deputado
Fernando Krelling

O que diz a legislação

Segundo o Ministério da Educação, estudantes com altas habilidades ou superdotação são aqueles que demonstram potencial elevado em áreas como a intelectual, acadêmica, artística, de liderança ou psicomotora, associado à criatividade e ao forte envolvimento em atividades de seu interesse.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) reconhece esse grupo como público da educação especial, assegurando-lhe atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino.

Melhoria do ambiente escolar

Na condição de presidente da Associação Catarinense para Altas Habilidades ou Superdotação, Ludimile Almeida também ressaltou a necessidade de o Estado avançar na questão de identificar e prestar atendimento específico ao estudante AH/SD.

Ela afirmou que a deficiência no ambiente escolar foi justamente o que motivou a criação da associação, que atualmente atende 400 famílias, de todo o estado.

Seminário sobre altas habilidades e superdotação realizado na Assembleia Legislativa
Foto: Rodrigo Corrêa/Agência Alesc
“Começamos a nos unir diante da dor de ver crianças e jovens sofrendo por frequentarem escolas que ainda não oferecem um ambiente adequado às suas necessidades. Diante dessa realidade, buscamos o poder público para contribuir com o aperfeiçoamento da legislação, tanto no âmbito do Legislativo quanto do Executivo. Também trabalhamos junto às escolas para que desenvolvam ações em parceria com as famílias, promovendo a integração dos estudantes com altas habilidades ou superdotação. É importante que essas crianças e jovens compreendam que não estão sozinhos, que existem outros com características semelhantes e que podem compartilhar experiências e participar de atividades em conjunto.”

Direitos dos superdotados

A questão dos direitos dos estudantes com altas habilidades, superdotação ou dupla excepcionalidade também foi tema de uma palestra ministrada pela advogada Vanessa Mello, que possui especialização na área.

Ela disse que a legislação federal enumera uma série de questões a serem adotadas pelo poder público em favor deste segmento da população, como direito à educação personalizada, com enriquecimento do currículo escolar e avanço nos conteúdos ministrados, de acordo com a necessidade de cada um.

Um falso conceito de que estes alunos não precisam de um apoio especial, entretanto, tem impedido que estas normativas sejam implementadas.

Seminário sobre altas habilidades e superdotação realizado na Assembleia Legislativa
Foto: Rodrigo Corrêa/Agência Alesc
“Temos muitas situações críticas em todo o Brasil, não em um estado específico, porque ainda existem muitos mitos e preconceitos sobre a forma de lidar com esses estudantes. Há uma percepção equivocada de que, por serem superdotados, eles não necessitam de apoio ou acompanhamento. Na realidade, ocorre justamente o contrário. Por apresentarem grande intensidade não apenas intelectual, mas também emocional e em outras dimensões do desenvolvimento, esses alunos precisam de suporte adequado para que possam desenvolver plenamente seu potencial.”

Superdotação como espectro

Outra questão levantada foi como atender o estudante com AH/SD no ambiente escolar. A professora e escritora Paula Moreira, especializada em superdotação, trouxe sua experiência como coordenadora, em uma escola no Piauí, de um núcleo de 32 crianças com esta condição.

Segundo ela, a principal questão é identificar a criança com altas habilidades ou superdotação (AH/SD) e reduzir a sensação de isolamento e falta de pertencimento, promovendo sua interação com outros estudantes com características semelhantes.

O desafio seguinte é ainda mais complexo, pois requer uma avaliação individualizada das necessidades de cada aluno para definir as estratégias de atendimento mais adequadas ao seu desenvolvimento.

Seminário sobre altas habilidades e superdotação realizado na Assembleia Legislativa
Foto: Rodrigo Corrêa/Agência Alesc
“Essa etapa é bastante desafiadora, porque cada estudante com altas habilidades ou superdotação possui características e necessidades próprias. Alguns necessitam de um ensino mais personalizado, enquanto outros demandam adaptações específicas. A superdotação não é uma condição homogênea, mas um espectro com diferentes perfis. Os alunos com características mais acentuadas, por exemplo, precisam de abordagens individualizadas e de um processo de aprendizagem que respeite seu ritmo de desenvolvimento.”

Os desafios da identificação

Já a psicóloga Gabriela Stenzel falou sobre os desafios relacionados à identificação de crianças com AH/SD.

Segundo ela, muitas famílias enfrentam dificuldades para reconhecer essas características, frequentemente associando o desenvolvimento precoce e comportamentos diferenciados dos jovens a transtornos como o déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), o que pode retardar o diagnóstico adequado.

Especialista participa de seminário sobre altas habilidades e superdotação
Foto: Rodrigo Corrêa/Agência Alesc
“Muitas vezes, comportamentos percebidos em sala de aula ou em casa, como agitação ou dificuldade de concentração, não indicam necessariamente um transtorno ou um problema. Em diversos casos, refletem características que ainda não foram compreendidas e identificadas corretamente. Por isso, mais do que intervenções clínicas, essas situações podem exigir adaptações e mudanças no ambiente escolar e familiar. A escola, a família e todo o contexto educacional são essenciais para promover o desenvolvimento adequado dessas crianças.”

Gabriela afirmou que não existe uma característica única capaz de identificar a condição, sendo necessária uma avaliação individualizada de cada criança.

Segundo ela, um dos sinais de alerta pode estar nas queixas recorrentes relacionadas ao ambiente escolar, bem como em situações de isolamento em relação aos demais estudantes.

Nesses casos, a recomendação é buscar a orientação de um profissional especializado.

“É importante observar aquelas crianças que não conseguem se relacionar com os colegas não por dificuldades próprias, mas porque possuem interesses diferentes dos de seus pares. A criança precisa brincar, interagir e desenvolver seu potencial de aprendizagem como parte natural da infância. Quando algo não está funcionando adequadamente nesse processo, é necessário buscar ajuda. A identificação precoce é fundamental para que esse desenvolvimento ocorra da melhor forma possível.”


ALESC EXPLICA

O que são altas habilidades ou superdotação?

São características apresentadas por pessoas que demonstram potencial elevado em áreas como conhecimento acadêmico, artes, liderança, criatividade ou habilidades psicomotoras.

O que é dupla excepcionalidade?

É a condição da pessoa que apresenta altas habilidades ou superdotação associadas a outra condição, deficiência ou transtorno do neurodesenvolvimento.

O que prevê a legislação para esses estudantes?

A legislação brasileira garante atendimento educacional especializado e prevê estratégias pedagógicas adequadas às necessidades de cada estudante.

Por que a identificação precoce é importante?

Porque permite oferecer apoio adequado ao desenvolvimento acadêmico, social e emocional do estudante, evitando dificuldades de adaptação e aprendizagem.

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