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Autora de livro e palestrante, policial conta história real de abuso sexual e prisão do agressor


“A Calha” é um livro que, segundo a própria autora, a policial civil Jessica Martinelli, transformou a dor em justiça.

Pedro Schmitt
01/07/2026 - 16h26min

Autora de livro e palestrante, policial conta história real de abuso sexual e prisão do agressor

Foto: Bruno Collaço/Agência Alesc

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“A Calha” é um livro que, segundo a própria autora, a policial civil Jessica Martinelli, transformou a dor em justiça.

Com a capacidade de superar um trauma de infância, Jessica compartilha uma trajetória marcada por uma história de violência que resultou, anos depois, na prisão do agressor.

A obra retrata não apenas sua vivência pessoal, mas também o caminho de reconstrução, coragem e busca por justiça.

Ela se transformou em palestrante, sempre abordando o tema da violência contra a mulher, motivo do evento realizado nesta quarta-feira (1º), no Plenarinho Deputado Paulo Stuart Wright.

Lançamento de livro no Parlamento catarinense
Foto: Bruno Collaço/Agência Alesc
A deputada Luciane Carminatti (PT) convidou a policial para contar sua história e lançar seu livro no Parlamento estadual, e valorizou a iniciativa da autora, “por também levar uma história de violência e dor para ambientes escolares, para educar as novas gerações e fazer com que a sociedade se envolva com esse tema, da violência contra a mulher e crianças”.

A referência tem relação com a atividade que Jéssica começou a desenvolver em ambientes escolares, especialmente em Chapecó, sua cidade.

Ela trata questões como violência sexual infantil, violência doméstica e o papel da sociedade no enfrentamento dessas realidades, promovendo reflexão, conscientização e incentivo à denúncia.

Violência no ambiente familiar

Jéssica começou a ser abusada por um amigo de seu pai num ambiente em que a família costumava frequentar, chamado de calha. O local não existe mais, pois foi inundado em razão de uma das barragens do Rio Uruguai no oeste.

Ela tinha 9 anos quando começou a ser assediada por Fred, nome fictício do agressor. “Eu não gostava, mas não entendia o que estava acontecendo”.

As situações se repetiam, chegando à conjunção carnal quando ela tinha 12 anos. O medo de revelar aos pais, e o desequilíbrio da mãe, que tinha crises em função de quadro bipolar a levaram a nunca contar em casa o que se passava.

Denúncia e constrangimentos

Quando já tinha 16 anos, revelou sua história para algumas amigas. A mãe de uma delas foi quem a encorajou a denunciar Fred. Em casa, contou para a irmã mais velha, Joana, que chamou o pai.

Na delegacia, enfrentou outra surpresa. Ao invés de ser acolhida, o plantonista duvidou e disse que era “compadre” do agressor. Só no dia seguinte ela recebeu um abraço da escrivã, a quem repetiu sua história. Mas precisou passar por uma perícia médica em que, para provar que era vítima, precisou ouvir: “Abre mais as pernas, que eu não estou enxergando bem”.

Segunda denúncia foi determinante

Depois, enfrentou um périplo, até chegar ao desfecho, quando já havia se tornado policial civil concursada.

O inquérito foi esquecido numa prateleira da delegacia por quatro anos. Quando chegou ao Ministério Público, foram mais dois anos até o promotor decidir apresentar a denúncia. Ela descobriu que Fred, que trabalhava como fotógrafo, tinha outro boletim de ocorrência registrado pelo mesmo motivo, que tinha molestado uma menina em seu estúdio.

Já eram dois casos, um caso de atentado violento ao pudor, outro por estupro de vulnerável. O julgamento, em 2013, resultou na condenação do agressor com a pena de 7 anos e 6 meses de prisão. Mas Fred escapou de ser transferido para um presídio por falta de vaga, após estar preso por um mês numa delegacia.

Jéssica completou a formação na Academia de Polícia, e quando foi nomeada, voltou a encontrar a mãe da outra vítima, 15 dias após iniciar os trabalhos para uma delegacia em Chapecó. A mulher cobrou, se ela não iria atrás do condenado. Os colegas de trabalho a encorajaram a revisar o processo. O mandado de prisão estava válido.

Batendo as grades da cela

A equipe policial localizou o paradeiro do condenado num sítio. Jéssica foi com a equipe na viatura, mas contou que, no momento da prisão, quando ele a encarou, voltou o medo de quando era criança e abusada pelo agressor.

No caminho de volta até a delegacia, os colegas a confortaram e a encorajaram para conduzir Fred do camburão até a cela.

Lançamento do livro 'A Calha' no Parlamento catarinense
Foto: Bruno Collaço/Agência Alesc
“Ao sair da caixa da viatura, ele quis me encarar e eu mandei abaixar a cabeça. Disse a ele: você não tem o direito de me olhar nos olhos. Aquela criança cresceu, é policial e tem uma pistola .40 na cintura. Eu mesmo bati as grades da cela”.

Diálogo franco sobre sexualidade

Jessica festejou nesta quarta-feira seus 10 anos como policial civil. Formou-se em Direito e fez mestrado. O crescimento profissional, porém, sempre foi acompanhado do trauma, que a fez procurar apoio em terapias por anos.

Sua história ganhou destaque por unir vivência pessoal e atuação profissional na segurança pública, tornando-se uma voz ativa na conscientização sobre violência sexual infantil e violência doméstica.

Em suas palestras, ela sempre desafia as plateias, perguntando quem já conversou francamente com seus filhos sobre sexualidade. Para ela, o diálogo franco e aberto elimina barreiras e fortalece os laços familiares.


ALESC EXPLICA

O que é o livro “A Calha”?

É uma obra autobiográfica escrita pela policial civil Jessica Martinelli que relata sua história real de superação de um abuso sexual sofrido na infância e sua trajetória até a prisão do agressor.

Qual o objetivo do lançamento da obra na Alesc

Promover o debate institucional sobre o enfrentamento à violência contra mulheres e crianças, destacando a importância de ações educativas e de conscientização em ambientes escolares.

Qual a origem do nome do livro?

Refere-se ao nome da localidade no oeste catarinense onde a autora frequentava com a família na infância e onde ocorreram os primeiros abusos. O local foi posteriormente inundado por uma barragem do Rio Uruguai.

Quais foram os principais entraves na busca por justiça?

A autora enfrentou desconfiança e constrangimentos no atendimento policial inicial, além da morosidade do sistema jurídico, que levou cerca de seis anos entre a tramitação do inquérito e a denúncia do Ministério Público.

Como o caso foi solucionado?

Anos após o crime, ao assumir o cargo na Polícia Civil em Chapecó, a própria autora revisou o processo e participou da ação policial que localizou e cumpriu o mandado de prisão do agressor, que já havia sido condenado.


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