
Tem aquela história no meio da selva amazônica, aquela outra em Serra Pelada e também a vez que o taxista argentino chorou ao saber quem eram os passageiros. Lá se vão 50 anos de parceria do casal Amilton e Marlene Silveira, de Joinville, que já percorreu a América do Sul soltando a voz em louvor a Deus. Por essa jornada, nesta quarta-feira (29), eles receberam uma moção de aplauso da Assembleia Legislativa, proposta pelo deputado Sargento Lima (PL).
Amilton é pastor da Assembleia de Deus. “E eu sou apenas cantora”, diz Marlene, que começou a cantar na igreja aos 16 anos. Gravaram 12 discos de vinil, CDs e, agora, a voz está gravada em pen-drives e salva na nuvem. Eles não sabem se são “os mais”, porém não têm dúvidas que são o casal com “um dos maiores” tempos de estrada na música evangélica do Brasil. Ao entregar a honraria, Sargento Lima destacou a responsabilidade que Amilton e Marlene carregam e o amor deles pelo que fazem.
Ao longo de cinco décadas, a dupla foi colecionando histórias. Ele nasceu em Lages e ela é manezinha da Ilha, mas o destino os uniu em Joinville onde chegaram ainda jovens. Aos 25 anos, Amilton prometeu a Deus que jamais casaria, mas… encontrou a voz de Marlene. “Ele não estava procurando uma esposa, mas uma voz”, brinca ela.
Logo no começo, foram a São Paulo gravar o primeiro disco. Na gravadora, encontraram os também jovens Milionário e José Rico. Mas o negócio de Amilton e Marlene eram as canções evangélicas. Após os primeiros versos cantados foram interrompidos pelo produtor:
“Quero que vocês gravem músicas sertanejas”, já prevendo o sucesso.
“Não”, respondeu o pastor com firmeza. E explicou que a missão deles era louvar a Deus.
E foi focado nessa missão que o casal percorreu o Brasil inteiro e um bom pedaço da América do Sul.
Estavam na Argentina e, terminado o evento, o pastor que os recepcionou chamou um táxi. Embarcaram e o anfitrião falou que o motorista iria transportar os cantores Amilton e Marlene. O taxista ficou surpreso: “Eu ouço vocês desde criança, na casa dos meus pais”, e começou a chorar.
Pelo Brasil, cantaram no ambiente inóspito de Serra Pelada, onde o sonho da riqueza formou um ambiente de “pobreza, prostituição e bandidagem”, lembra Marlene. “Cantamos nos piores presídios de São Paulo e do Rio Grande do Sul”, recordam. E no meio da selva Amazônica, estavam numa comunidade pequeníssima. Terminada a pregação, faltou luz. E depois água. Havia acabado o combustível para o gerador e as pessoas se revoltaram, deu tumulto.
Não tinham nada com o problema, mas a chapa esquentou e os dois tiveram que sair da comunidade o mais rápido possível. No meio da selva só há duas rotas de fuga: por água ou pelo ar. Havia um teco-teco onde cabiam cinco, mas sete se espremerem e lá foram eles. “45 minutos, mas a viagem pareceu uma eternidade”, ressalta o casal ao lembrar o sobe e desce do pequeno avião.
Amilton, 76 anos, Marlene, 68. São cinco filhos criados com dificuldade para dar atenção às crianças e, ao mesmo tempo, cantar Brasil afora. “Foram 25 anos viajando de ônibus. Demorava muito. A gente deixava os filhos com os avós ou então com uma moça que cuidava deles. E a gente ficava uma ou duas semanas fora de casa”, conta Marlene com dor no coração.
São 50 anos cantando e também compondo mais de 400 canções evangélicas. Eles não gostam do termo “gospel”. E pela saúde e disposição que têm, sabe lá Deus quantos anos ainda emprestarão suas vozes para louvar ao Senhor.

