O que a história ensina sobre os desastres em Santa Catarina


14/08/2026 - 13h00min

O que a história ensina sobre os desastres em Santa Catarina

Foto: Ascom/Cemaden

Quem vive em Santa Catarina dificilmente esquece os anos em que a água tomou conta das ruas, interrompeu estradas, invadiu casas e mudou a rotina de milhares de famílias.

As enchentes de 1983, 1984, 2008, 2011 e, mais recentemente, os eventos extremos registrados em 2023 permanecem na memória coletiva dos catarinenses.

Mais do que fenômenos climáticos, esses episódios ajudaram a moldar a forma como o estado passou a compreender e enfrentar os desastres naturais.

Essa memória coletiva ajuda a explicar por que os grandes desastres não começaram com o El Niño. Elas acompanham o desenvolvimento do estado desde o processo de colonização.

O que mudou, segundo os pesquisadores, foi a forma como a sociedade passou a ocupar o território.

Nas últimas décadas, o crescimento das cidades avançou sobre margens de rios, planícies de inundação e encostas, reduzindo áreas naturais capazes de absorver o excesso de água e aumentando a exposição da população aos eventos extremos.

Para o pesquisador em História Ambiental da Universidade Regional de Blumenau (FURB), Martin Stabel Garrote, é justamente essa combinação entre fenômenos naturais e ocupação do território que explica por que eventos semelhantes produzem impactos cada vez maiores.

Especialista em registro utilizado na reportagem especial sobre o El Niño
Foto: Acervo pessoal
“O El Niño não explica sozinho os grandes desastres. O problema está na interação entre os fenômenos climáticos e a vulnerabilidade construída historicamente pela forma como ocupamos o território.”

Segundo o pesquisador, episódios como as enchentes de 1983, 1984, 2008, 2011 e 2023 representam marcos importantes da história catarinense porque transformaram não apenas a paisagem, mas também a forma como o Estado passou a compreender os desastres.

As tragédias impulsionaram avanços na meteorologia, fortaleceram a Defesa Civil, ampliaram o monitoramento hidrológico e aproximaram universidades, centros de pesquisa e órgãos públicos.

Mas também deixaram uma lição importante. “O problema não está apenas na intensidade das chuvas. Grande parte dos impactos decorre da vulnerabilidade criada pelas escolhas feitas ao longo do tempo.”

Histórico do fenômeno no estado

Veja impacto do El Niño em Santa Catarina ao longo dos anos.

Enchente em Itajaí 1983
Itajaí
Enchente em Itajaí 1983
Itajaí
Enchente em Ouro 1983
Ouro
Enchente em Ouro 1983
Ouro
Enchente em Ouro 1983
Ouro

Foto: Defesa Civil Itajaí / Prefeitura de Ouro / Reprodução

As Grandes Enchentes de 1983

Durante o ano de 1983, um dos mais intensos eventos de El Niño do século XX trouxe chuvas ininterruptas para Santa Catarina. O Vale do Itajaí foi severamente impactado, com cidades enfrentando inundações históricas.

As águas deixaram dezenas de milhares de desabrigados e causaram o isolamento de municípios inteiros, forçando o governo a reestruturar a forma como o estado lidava com a Defesa Civil.

Arquivo Público 1984
Blumenau
Arquivo Público 1984
Blumenau
Arquivo Público 1984
Blumenau
Arquivo Público 1984
Blumenau
Arquivo Público 1984
Santa Catarina
Arquivo Público 1984
Itajaí
Arquivo Público 1984
Santa Catarina
Arquivo Público 1984
Itajaí
Arquivo Público 1984
Ilhota

Foto: Arquivo Público SC / Reprodução

As Consequências em 1984

O ano de 1984 ainda sofreu com os resquícios e a continuidade das intempéries climáticas que assolaram o estado no ano anterior. A recuperação de infraestrutura e o amparo aos flagelados continuaram sendo pautas urgentes.

Cidades como Blumenau e Itajaí, que já haviam sido drasticamente afetadas, mantiveram estado de alerta e iniciaram um lento processo de reconstrução que moldaria a prevenção no estado.

Gaspar 2008
Gaspar
Itajaí 2008
Itajaí
Itajaí 2008
Itajaí
Itajaí 2008
Itajaí
Itajaí 2008
Itajaí
Ilhota 2008
Ilhota

Foto: Prefeituras e Defesas Civis / Reprodução

A Tragédia de 2008: Deslizamentos e Inundações

Em novembro de 2008, o acúmulo de chuvas contínuas provocou uma das maiores catástrofes naturais do Brasil. Diferente de 1983, o maior agravante não foram apenas as águas fluviais, mas a saturação extrema do solo, resultando em milhares de deslizamentos de terra.

O Complexo do Baú, em Ilhota, e extensas áreas em Blumenau e Gaspar sofreram soterramentos severos. O estado decretou estado de calamidade pública devido ao rastro de destruição e à infraestrutura rodoviária cortada.

Itajaí 2011
Itajaí
Itajaí 2011
Itajaí
Itajaí 2011
Itajaí
Gaspar 2011
Gaspar
Gaspar 2011
Gaspar
Gaspar 2011
Gaspar

Foto: ArcGIS Itajaí / Defesa Civil de Gaspar / Reprodução

Chuvas Intensas de 2011

Setembro de 2011 marcou mais um período de fortes chuvas influenciadas por anomalias climáticas. O Alto e o Médio Vale do Itajaí registraram altos volumes pluviométricos em poucos dias. Municípios como Rio do Sul, Itajaí e Blumenau entraram em alerta máximo.

Graças aos sistemas de monitoramento aprimorados após 2008, as evacuações ocorreram de forma mais organizada, minimizando perdas, embora os prejuízos econômicos e na agricultura tenham sido imensos em várias regiões.

Itajaí 2023
Itajaí
Brusque 2023
Brusque
Blumenau 2023
Blumenau
Brusque 2023
Brusque
Vidal Ramos 2023
Vidal Ramos
Vidal Ramos 2023
Vidal Ramos
Vidal Ramos 2023
Vidal Ramos
Mafra 2023
Mafra
Mafra 2023
Mafra

Foto: Prefeituras e Defesas Civis / Reprodução

Outubro e Novembro de 2023

Com o retorno intenso do El Niño, a primavera de 2023 foi marcada por múltiplos ciclones extratropicais e frentes frias estacionárias. O estado enfrentou sucessivas ondas de enchentes que afetaram mais de 100 municípios.

As barragens de contenção do Alto Vale atingiram sua capacidade máxima, vertendo de forma controlada. A infraestrutura rodoviária e pontes em cidades como Mafra e Vidal Ramos sofreram danos severos, reativando a discussão sobre obras de macrodrenagem.

Arte e interatividade: Milene Conci / Agência ALESC

O desafio não termina quando a chuva passa

Reconstruir cidades depois de uma enchente sempre mobiliza recursos, solidariedade e esforço coletivo.

Entretanto, para os especialistas, o maior investimento precisa acontecer antes que o desastre ocorra. Martin Garrote chama atenção para um aspecto que costuma passar despercebido: historicamente, o Brasil investe mais na reconstrução do que na prevenção. 

“O principal erro foi ocupar sistematicamente áreas sujeitas às cheias e aos movimentos de massa, ignorando a dinâmica dos rios e das encostas.”

Segundo ele, a experiência acumulada por Santa Catarina demonstra que proteger matas ciliares, preservar encostas e respeitar áreas de inundação não significa impedir o desenvolvimento das cidades.

Pelo contrário. “Proteger os processos ecológicos também significa proteger vidas, patrimônio e o próprio desenvolvimento regional.”

O pesquisador defende que ciência e planejamento territorial caminhem lado a lado.

“O conhecimento científico necessário para compreender muitos desses riscos já existe. O grande desafio é transformar esse conhecimento em políticas públicas permanentes.”

A mesma avaliação é compartilhada pelo diretor substituto do Cemaden, Pedro Camarinha. Segundo ele, os sistemas de alerta representam apenas a última camada de proteção.

Especialista em registro utilizado na reportagem especial sobre o El Niño
Foto: Ascom/Cemaden
“O correto é que os investimentos aconteçam muito antes dos alertas, com planejamento urbano, infraestrutura, conservação ambiental, educação para redução de riscos e gestão adequada do território.”

Nos últimos anos, o Cemaden ampliou significativamente sua estrutura de monitoramento. Atualmente, a instituição conta com uma das maiores redes de pluviômetros automáticos do mundo, além de estações hidrológicas, sensores de umidade do solo, radares e sistemas computacionais cada vez mais sofisticados.

Mesmo assim, Camarinha lembra que nenhuma tecnologia consegue eliminar completamente os riscos quando cidades continuam crescendo sobre áreas vulneráveis.

“As mudanças climáticas tornam os eventos extremos mais frequentes e mais intensos. Isso exige uma evolução permanente das tecnologias, mas também das políticas públicas.”

Prevenção em
primeiro lugar

Cinco frentes que especialistas apontam para reduzir riscos de desastres antes que a próxima enchente aconteça

Respeitar a dinâmica dos rios

Ocupar áreas de cheia e encosta é o erro histórico; conhecer o comportamento de rios e encostas evita tragédias.

Ilustração da dinâmica de rios em áreas urbanas

Preservar para desenvolver

Matas ciliares e encostas preservadas não travam a cidade, protegem vidas, patrimônio e desenvolvimento regional.

Ilustração de matas ciliares

Ciência virar política pública

O conhecimento científico já existe; o desafio é transformá-lo em política permanente, não resposta emergencial.

Ilustração representando a integração da ciência

Planejar antes do alerta

Alertas são a última camada; o essencial vem antes, com planejamento urbano, infraestrutura, educação e gestão territorial.

Ilustração de planejamento estrutural urbano

Monitorar e evoluir sempre

O Cemaden opera uma das maiores redes de sensores do mundo, mas o clima muda e tecnologia/políticas precisam evoluir junto.

Ilustração de sistema de monitoramento climático

Arte e interatividade: Milene Conci / Agência ALESC

A informação também salva vidas

Embora o avanço da ciência permita compreender cada vez melhor o comportamento da atmosfera, nenhuma previsão elimina totalmente as incertezas.

A meteorologia trabalha com probabilidades. Por isso, os especialistas reforçam que acompanhar diariamente as atualizações oficiais continua sendo uma das medidas mais importantes para reduzir riscos.

Segundo a meteorologista da Epagri/Ciram Gilsânia de Souza Cruz, o fato de o El Niño indicar uma tendência de aumento das chuvas não significa que choverá todos os dias ou que todas as regiões enfrentarão grandes desastres.

Cada evento possui características próprias e os modelos meteorológicos são atualizados continuamente.

Equipe da Defesa Civil acompanha informações em computadores durante atividade de monitoramento
Monitoramento realizado pela Defesa Civil em computadores

Fotos: Airton Fernandes/Defesa Civil

Monitoramento constante

“Não adianta consultar a previsão no início da semana e acreditar que ela continuará igual até sexta-feira. Os modelos mudam diariamente e precisam ser acompanhados constantemente.”

Ela também faz um alerta para a circulação de informações sem respaldo técnico nas redes sociais.

“É importante buscar informações nos órgãos oficiais. Mensagens alarmistas, muitas vezes sem qualquer fundamento científico, acabam gerando medo desnecessário e dificultam o trabalho de prevenção.”

Para a meteorologista, a palavra que deve orientar a população nos próximos meses é cautela.

“Não adianta sofrer por antecipação. Precisamos acompanhar um dia de cada vez, observar as previsões e confiar nas informações divulgadas pelos órgãos oficiais.”

O pesquisador Martin Garrote acrescenta que a própria história de Santa Catarina mostra a importância de preservar a memória dos grandes desastres.

Segundo ele, cidades como Blumenau, Rio do Sul e Brusque desenvolveram, ao longo das décadas, uma cultura de acompanhamento dos níveis dos rios e dos alertas meteorológicos. No entanto, essa memória pode se perder com o tempo.

“A educação para redução de riscos precisa manter viva a memória das tragédias. Quando esquecemos o que aconteceu, aumentamos novamente nossa vulnerabilidade.”

Enquanto o Oceano Pacífico continua aquecendo, equipes da Epagri/Ciram, do Cemaden, da Defesa Civil e de diversas instituições científicas seguem monitorando cada mudança na atmosfera.

Em Santa Catarina, o desafio é transformar esse conhecimento em prevenção, antecipando riscos, orientando decisões e fortalecendo a capacidade de resposta do poder público e da população.

Afinal, diante de um fenômeno que não pode ser evitado, a informação de qualidade continua sendo uma das ferramentas mais importantes para proteger vidas.


ALESC EXPLICA

Por que Santa Catarina é vulnerável a enchentes e deslizamentos?

Segundo os pesquisadores ouvidos na reportagem, os impactos resultam da combinação entre fenômenos naturais e a forma como o território foi ocupado. O crescimento urbano sobre margens de rios, planícies de inundação e encostas aumentou a exposição da população aos eventos extremos.

O El Niño é responsável pelos grandes desastres em Santa Catarina?

Não isoladamente. O pesquisador Martin Stabel Garrote explica que fenômenos climáticos interagem com vulnerabilidades construídas historicamente pela ocupação do território. Assim, chuvas intensas podem produzir impactos maiores em áreas urbanizadas e ambientalmente vulneráveis.

Como os grandes desastres mudaram Santa Catarina?

Eventos como as enchentes de 1983, 1984, 2008, 2011 e 2023 contribuíram para avanços na meteorologia, no monitoramento hidrológico e na atuação da Defesa Civil, além de aproximarem universidades, centros de pesquisa e órgãos públicos.

O que pode reduzir os riscos de novos desastres?

Os especialistas destacam planejamento urbano, preservação de matas ciliares e encostas, respeito às áreas de inundação, infraestrutura, educação para redução de riscos, monitoramento e transformação do conhecimento científico em políticas públicas permanentes.

Por que é importante acompanhar a previsão do tempo diariamente?

A meteorologia trabalha com probabilidades e os modelos são atualizados continuamente. Por isso, uma previsão consultada vários dias antes pode mudar. A recomendação apresentada na reportagem é acompanhar as atualizações e priorizar informações divulgadas por órgãos oficiais.

Por que preservar a memória das enchentes?

Segundo Martin Garrote, lembrar os grandes desastres contribui para a educação para redução de riscos. Quando a sociedade perde a memória das tragédias anteriores, pode voltar a repetir decisões que aumentam sua vulnerabilidade.

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