O que esperar do El Niño em 2026


06/08/2026 - 14h51min

O que esperar do El Niño em 2026

Foto: Airton Fernandes/Defesa Civil SC

Depois de meses de monitoramento, os principais centros meteorológicos passaram a convergir para um mesmo cenário: o El Niño deve ganhar intensidade ao longo do segundo semestre de 2026 e atingir seu pico durante a primavera e o verão no Hemisfério Sul.

A tendência é acompanhada diariamente pela equipe da Epagri/Ciram, responsável pelo monitoramento meteorológico em Santa Catarina.

Embora os efeitos variem de uma região para outra, os especialistas alertam que os próximos meses exigirão atenção redobrada, principalmente em relação às chuvas intensas e aos temporais.

Segundo a meteorologista Gilsânia de Souza Cruz, os dados mais recentes apontam para um fenômeno de forte intensidade, com possibilidade de alcançar a categoria de muito forte nos próximos meses.

“Os modelos indicam que o fenômeno será de intensidade forte nos próximos meses, atingindo intensidade muito forte durante a primavera e o verão, podendo persistir até o início de 2027.”

Os principais impactos sazonais esperados para Santa Catarina.

Acompanhe a evolução projetada da intensidade do fenômeno
clicando nos alertas da barra indicativa.

2026
2027
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Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun
❄️ INVERNO
🌸 PRIMAVERA
☀️ VERÃO
🍂 OUTONO

Arte e interatividade: Milene Conci / Agência ALESC

Historicamente, é justamente nesse período que Santa Catarina registra alguns dos maiores  acumulados de chuva do ano.

A primavera já é naturalmente marcada pela passagem frequente de frentes frias e pela formação de tempestades.

Com a atuação do El Niño, essas condições tendem a se intensificar, favorecendo episódios de precipitação persistente e eventos extremos.

“O maior impacto costuma ocorrer na primavera do ano em que o fenômeno se forma. Em Santa Catarina, outubro e novembro normalmente concentram os maiores volumes e a maior persistência das chuvas”, explica Gilsânia.

Além do aumento das precipitações, outro efeito esperado é a redução da frequência e da intensidade das massas de ar frio durante o inverno e o início da primavera.

“O comportamento das temperaturas também muda. Em geral, observamos menos frio durante o inverno e o início da primavera, enquanto os sistemas meteorológicos instáveis tornam-se mais frequentes.”

Ainda assim, a meteorologista faz uma ressalva importante: um El Niño forte não significa que todos os municípios enfrentarão os mesmos impactos.

“Outras oscilações atmosféricas também influenciam o comportamento do tempo. Nem sempre todo o Sul do Brasil será atingido da mesma forma e no mesmo momento.””

Como a ciência acompanha um fenômeno que dura meses

Ao contrário de uma frente fria ou de um ciclone, que se desenvolvem em poucos dias, o El Niño é um fenômeno lento. Sua formação acontece gradualmente e sua evolução pode ser acompanhada durante vários meses.

Para isso, meteorologistas monitoram continuamente uma enorme quantidade de informações produzidas por instituições brasileiras e internacionais.

Na Epagri/Ciram, o trabalho combina observações realizadas em Santa Catarina com dados provenientes dos principais centros meteorológicos do mundo.

Entre os indicadores analisados estão a temperatura da superfície do mar, o Índice ONI (Oceanic Niño Index), campos atmosféricos, imagens de satélite e modelos numéricos de previsão climática.

“Monitoramos continuamente a temperatura da superfície do mar e os indicadores atmosféricos. À medida que novas informações são atualizadas, elaboramos notas meteorológicas, previsões sazonais e, quando necessário, avisos meteorológicos para situações de curto prazo”, explica Gilsânia.

Gilsânia de Souza Cruz, Meteorologista da equipe da equipe Epagri/Ciram.
Fonte: Acervo pessoal.

As previsões também utilizam modelos computacionais desenvolvidos por instituições como a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e centros de pesquisa do Canadá e da Austrália.

Esses sistemas simulam o comportamento da atmosfera e dos oceanos utilizando milhões de cálculos por segundo.

Além dos modelos individuais, os meteorologistas também comparam e combinam diferentes projeções, incluindo modelos estatísticos e ferramentas baseadas em inteligência artificial, capazes de identificar padrões semelhantes aos registrados em eventos anteriores.

Essa estratégia, conhecida como ensemble, reúne os resultados de diversas simulações para construir previsões mais confiáveis e reduzir as incertezas inerentes ao comportamento da atmosfera.

“O objetivo é analisar dezenas de modelos diferentes para construir uma previsão probabilística. Nenhum modelo, isoladamente, consegue representar toda a complexidade da atmosfera.”

Saiba Mais: A Ciência e o Clima

Monitoramento Integrado

A ciência acompanha o El Niño conectando dados locais e globais. Em Santa Catarina, a Epagri/Ciram e a Defesa Civil atuam em conjunto com o INPE. Simultaneamente, supercomputadores de agências internacionais como a NOAA (EUA) e o ECMWF (Europa) simulam as interações oceano-atmosfera para todo o planeta.

Indicadores e Estratégia ‘Ensemble’

Nenhum modelo funciona sozinho. A ciência analisa indicadores precisos (TSM, Índice ONI) e utiliza a técnica Ensemble — combinando projeções matemáticas, estatística e Inteligência Artificial (IA) para encontrar um consenso confiável.

Indicadores Analisados
TSM Índice ONI Ensemble I.A. Satélite

Arte e interatividade: Milene Conci / Agência ALESC

Quando uma previsão de chuva se transforma em alerta de desastre

Enquanto a Epagri acompanha a evolução do clima, outra instituição trabalha com uma pergunta ainda mais urgente: aquela chuva prevista poderá se transformar em tragédia?

Essa é a missão do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Funcionando 24 horas por dia, a instituição reúne meteorologistas, hidrólogos, geólogos e especialistas em vulnerabilidade social que acompanham continuamente quase 1.300 municípios brasileiros considerados suscetíveis a desastres.

Monitoramento e prevenção do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

24h
De monitoramento
ininterrupto
1.300
Municípios
monitorados
2 dias
Antecedência
dos alertas

De aviso meteorológico a alerta de desastre A emissão de alertas não depende apenas da chuva, mas da avaliação técnica sobre o impacto gerado. Uma equipe multidisciplinar usa dados para transformar informação em prevenção e salvar vidas.

Segundo o coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, Marcelo Seluchi, existe uma diferença fundamental entre um aviso meteorológico e um alerta de desastre.

"Um aviso informa que poderá ocorrer chuva forte. O alerta do Cemaden indica que essa chuva tem potencial para provocar enchentes, enxurradas ou deslizamentos em um determinado município."

Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden. Fonte: Acervo pessoal.

Para chegar a essa conclusão, o centro utiliza uma extensa rede de monitoramento formada por pluviômetros automáticos, radares meteorológicos, imagens de satélite, sensores de umidade do solo e estações hidrológicas que acompanham, em tempo real, o nível dos rios.

Esses dados alimentam modelos computacionais capazes de estimar o comportamento das bacias hidrográficas e das encostas antes mesmo da ocorrência dos desastres.

Além da intensidade da chuva, os especialistas avaliam fatores como relevo, saturação do solo, histórico de eventos extremos e grau de vulnerabilidade da população.

"Não monitoramos apenas a chuva. Avaliamos quais impactos ela pode produzir naquele território específico."

Quando o risco é confirmado, o Cemaden envia um documento técnico à Defesa Civil Nacional, que repassa as informações aos estados e municípios.

Cabe então às Defesas Civis locais decidir quais medidas deverão ser adotadas, como mobilização de equipes, abertura de abrigos, interdição de áreas de risco ou emissão de alertas à população.

Segundo o diretor substituto do Cemaden, Pedro Camarinha, todo o processo é baseado em análise técnica e avaliação humana.

"Os sistemas computacionais auxiliam a tomada de decisão, mas a emissão do alerta sempre passa pela avaliação de uma equipe multidisciplinar formada por especialistas em meteorologia, hidrologia, geodinâmica e vulnerabilidade."

Pedro Camarinha, diretor substituto do Cemaden. Fonte: Acervo pessoal.

Dependendo das características do evento, os alertas podem ser emitidos com até dois dias de antecedência.

Já em situações mais rápidas, como enxurradas provocadas por tempestades de verão, o tempo de resposta pode ser de apenas algumas horas — ou até poucos minutos.

Por isso, os especialistas reforçam que o monitoramento é permanente.

“Enquanto o El Niño funciona como um pano de fundo, aumentando a probabilidade de eventos extremos ao longo de vários meses, são as previsões de curto prazo que indicam onde e quando os riscos realmente poderão se transformar em desastre. É justamente essa combinação entre ciência, tecnologia e monitoramento contínuo que permite transformar informação em prevenção e ampliar a capacidade de resposta dos órgãos públicos diante dos desafios impostos pelo clima.”

Reportagem: Simone Sartori/Agência Alesc


ALESC EXPLICA

O que é o Índice ONI?

É um indicador que acompanha as variações da temperatura das águas do Pacífico Equatorial e ajuda a identificar a formação e a intensidade do El Niño.

O que é uma previsão sazonal?

É uma estimativa das tendências de chuva e temperatura para os meses seguintes. Ela indica probabilidades e não determina exatamente onde ou quando ocorrerá um evento extremo.

O que é um ensemble?

É a combinação dos resultados de diferentes modelos meteorológicos para produzir previsões mais confiáveis e reduzir as incertezas.

Qual é a diferença entre aviso e alerta?

O aviso informa a possibilidade de um fenômeno meteorológico, como chuva forte. O alerta considera também os impactos que essa chuva pode provocar em um território específico.

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