Banana de Corupá: do reconhecimento da qualidade à valorização da produção local


28/09/2026 - 12h29min

Banana de Corupá: do reconhecimento da qualidade à valorização da produção local

Foto: Ana Quinto / Agência Alesc

Banana de Corupá

Das terras do vale do Rio Itapocu e do sopé da Serra do Mar provém outro dos 12 produtos com Indicação Geográfica (IG) em Santa Catarina. Trata-se da banana da região de Corupá, que conquistou o registro, na modalidade Denominação de Origem, no ano de 2018, tornando-se a primeira fruta do país a obter esse nível de reconhecimento.

Foto: Ana Quinto / Agência Alesc

O registro compreende todas as variedades de banana do subgrupo “Cavendish” (popularmente conhecida como nanica ou caturra), produzidas nos municípios de Corupá, Jaraguá do Sul, Schroeder e São Bento do Sul. O grande diferencial do produto é o teor natural de doçura superior ao da média nacional, atributo comprovado durante o processo de averiguação técnica realizado pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).

Uma banana com características únicas

Conforme o engenheiro agrônomo Samir Paulinho Venera Junior, as particularidades do solo, relevo e clima da região, que combinam plantio em altitude, alta incidência solar e variação térmica, favorecem um maior acúmulo e transformação dos açúcares e ácidos naturais das frutas, resultando em bananas mais aromáticas e saborosas. As frutas produzidas na região também apresentam maior teor de potássio, cálcio e manganês, e menores teores de magnésio.

“Estamos a 40 quilômetros do mar e a 10 quilômetros da serra. Então, temos um clima bastante úmido e com estações bem definidas, com muito calor no verão e muito frio no inverno. Também muita amplitude térmica durante os dias. Com isso, ocorre que o período de desenvolvimento do fruto é mais longo. No Centro-Oeste do país um cacho de banana leva de 6 a 7 meses para ser produzido, enquanto aqui o período se estende de 12 a 13 meses. Por isso que a nossa banana é única e costumamos dizer que é o nosso ouro verde.”

Selo Denominação de Origem Banana de Corupá

Ficha Técnica

Indicação Geográfica (2016) Denominação de Origem (2018)
  • Território Corupá, Jaraguá do Sul, Schroeder e São Bento do Sul.
  • Cultivar Todas as variedades de banana do subgrupo “Cavendish” (popularmente conhecidas como nanica ou caturra).
  • Condições de Cultivo Plantio em altitude com variação térmica. O clima prolonga o período de desenvolvimento do fruto para 12 a 13 meses.
  • Perfil do Fruto Aromática, saborosa e com teor natural de doçura superior à média nacional. Elevado teor de potássio, cálcio e manganês.

O caminho até a Indicação Geográfica

A conquista da Indicação Geográfica foi articulada pela Associação dos Bananicultores da Região de Corupá (Asbanco), que representou 350 produtores e coordenou a articulação necessária para comprovar as características que diferenciam o produto e sua relação com o território.

O pedido de registro foi protocolado pela entidade junto ao INPI em agosto de 2016. Para reunir os estudos e documentos exigidos, a associação contou com a participação de instituições como a Epagri, Sebrae e Universidade Federal de Santa Catarina.

O trabalho envolveu pesquisas sobre as condições naturais da região, as características da fruta e os métodos empregados pelos produtores. Entre os diferenciais identificados esteve o elevado teor de açúcares da banana produzida em Corupá, associado às condições de clima, solo e relevo do território.

Além da articulação para o reconhecimento, a Asbanco participou da definição das normas de produção e dos mecanismos de controle necessários para garantir a origem e a qualidade do produto. A entidade também passou a atuar na gestão e na promoção da Indicação Geográfica.

Em 28 de agosto de 2018, o INPI concedeu à banana de Corupá o registro de Denominação de Origem (DO), modalidade de Indicação Geográfica que reconhece produtos cujas características ou qualidades estão diretamente relacionadas aos fatores naturais e humanos de uma determinada região.

Reconhecimento e orgulho

O presidente da Asbanco, Olisses Jantsch, aponta o selo como uma verdadeira conquista para o setor.

“Para nós, esta é uma marca muito importante, a qual ainda não conseguimos nem mensurar a dimensão, pois além de agregar valor à produção local, também nos diferencia no mercado, pois agora temos um produto único, que não se encontra em nenhum outro lugar no mundo.”
Olisses Jantsch Presidente da Asbanco

Para Eliane Cristina Müller, diretora da Asbanco e gestora do projeto da IG, o registro é também um grande apoio à economia local, sobretudo para o município de Corupá.

“Temos cerca de 16 mil habitantes e aqui a atividade envolve cerca de 3 mil pessoas. Então, quando o comércio da banana vai bem, a nossa economia vai bem e o contrário também acontece.”

Outro aspecto destacado por ela é o impacto da Indicação Geográfica na autoestima da comunidade local.

 “A banana é uma fruta que sempre foi desvalorizada e que carrega até mesmo uma carga pejorativa. Quando um produto está em liquidação, é comum se dizer que está a preço de banana. E nós, produtores, sempre nos sentimos muito incomodados por isso, porque, querendo ou não, o que sabemos fazer de melhor é produzir banana, que já tem uma tradição de 116 anos na região. E o nosso sonho era que a nossa fruta fosse considerada um produto nobre, como a fisális e o morango. Por isso, trabalhamos com a IG e, para a gente, obtê-lo foi o resgate do orgulho de saber que produzimos a banana mais doce do Brasil e do mundo.”

Uma atividade que movimenta a economia

De acordo com a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), o estado conta atualmente com aproximadamente 3.800 bananicultores, dos quais cerca de 600 concentram-se no município de Corupá.

Entre eles, está o próprio pai de Eliane, Conrado Urbano Müller, de 71 anos. Em seus 25 hectares de terras, ele produz cerca de 800 mil kg de bananas por ano, sendo 80% da variedade nanica, contribuindo para que Corupá siga como terceiro maior polo produtor da fruta no país. No ano de 2002 o município também foi reconhecido oficialmente, por meio da Lei Estadual 12.472, como Capital Catarinense da Banana.

Família Trevisol, administradores da Vinícola Trevisol.

Conrado Urbano Mülle e Eliane Cristina Müller.

Foto: Ana Quinto / Agência Alesc

Para Conrado, a obtenção do registro é o reconhecimento do trabalho realizado há gerações pelos produtores locais e projeta a qualidade da fruta para além da região.

“Este selo de qualidade vem reconhecer o trabalho realizado aqui. Temos um terreno diferenciado, montanhoso, com altitude e ótima qualidade do ar, características que contribuem para uma banana diferenciada. Por isso, sem dúvida nenhuma, é um grande orgulho para nós. Sabemos que essa Indicação Geográfica ultrapassa as fronteiras do Brasil e alcança também o mercado internacional.”

3.800

Bananicultores em atividade em Santa Catarina

600

Desses produtores concentram-se no município de Corupá

800 mil

Quilos de banana produzidos por ano na propriedade de Conrado

3º Lugar

Posição de Corupá como o maior polo produtor da fruta no país

Da lavoura para a mesa

Atualmente, a banana de Corupá é comercializada principalmente no mercado nacional, sobretudo em território catarinense, mas também para São Paulo e estados do sul do país. Uma parcela menor, cerca de 10%, também é destinada à exportação, principalmente para Argentina e Uruguai.

A economia em torno da banana de Corupá, entretanto, vai muito além do consumo in natura, com outras iniciativas sendo adotadas, de forma individual ou coletiva, por entidades e pelo poder público local, visando ampliar as possibilidades de aproveitamento e agregação de valor ao produto.

Um exemplo é dado pela moradora de Corupá Valéria Millnitz Wantowski. Filha de bananicultores e casada com um produtor local, ela atualmente também se dedica a promover a utilização da banana na confeitaria, por meio do preparo de receitas como bolos, cucas e outros produtos artesanais.

Em 2023, uma criação sua conquistou o 1º lugar na categoria Bolos de Banana em um tradicional concurso gastronômico realizado no município, com a receita sendo selecionada para a publicação de um livro.  “A banana hoje é a nossa riqueza, é o que sustenta a gente. Vivemos nossa vida a partir dela”, resume.

Outra iniciativa de destaque é a criação da biomassa, obtida a partir do cozimento do fruto verde.

Desde 2018 a prefeitura de Corupá formalizou um acordo com uma cooperativa de produtores familiares para a incorporação do produto à merenda escolar, atendendo cerca de 2,5 mil estudantes da educação infantil do município.

Conforme o nutricionista Irineu Ferreira de Matos Júnior, que atende a cooperativa de bananicultores, a biomassa é um alimento muito versátil, que não agrega sabor nem cor ao alimento, podendo ser adicionada a praticamente todas as preparações, desde o feijão, para ajudar a engrossar o caldo, até pratos como estrogonofe, além de pães, cucas, bolos e bolachas.

Entre as suas principais propriedades, entretanto, está a melhoria do valor nutricional da alimentação.

“A biomassa é rica em vitaminas do complexo B, vitamina C, fósforo, potássio, magnésio. Também é rica em amido resistente, um tipo de fibra que trabalha no nosso intestino e isso funciona como um prebiótico. Então, ela é excelente para a saúde, pois ajuda a regular o colesterol e também a glicemia sanguínea.”

Outros municípios, como Jaraguá do Sul, Guaramirim, Schroeder, Ibirama, Joinville, além da Regional de Educação de Joinville, também seguiram a iniciativa e a cada mês a cooperativa em questão produz entre 600 e 700 kg de biomassa, que são incorporados em 40 mil pães e 1,8 mil kg de bolachas.

Edgar Heil Woiciekowski, que atua como presidente do empreendimento, credita o desempenho à conquista para a banana de Corupá do registro de Indicação Geográfica.

“A cooperativa consegue agregar valor para o produto e automaticamente conseguimos promover um repasse de renda aos produtores locais. E isso só foi possível por meio da IG, que aumentou muito a visibilidade do produto e fez com que aumentasse significativamente sua procura. Com base nisso, acredito que ainda há um bom caminho a ser percorrido. Bons frutos vão aparecer.”

Mapa das Indicações Geográficas em SC

Explore o roteiro dos produtos certificados pelas seis regiões catarinenses.

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Roteiro ALESC — ordem de publicação das matérias, ligadas pelo caminho mais curto entre as cidades.

Repórter: Alexandre Back / Agência ALESC

Design: Milene Conci / Agência ALESC


ALESC EXPLICA

O que torna a Banana de Corupá diferente?
As condições de solo, relevo e clima da região contribuem para características próprias da fruta. A Banana de Corupá apresenta teor natural de doçura superior à média nacional, além de características relacionadas ao aroma, sabor e composição mineral.

O que é a Denominação de Origem da Banana de Corupá?

É uma modalidade de Indicação Geográfica concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) a produtos cujas características ou qualidades estão diretamente relacionadas aos fatores naturais e humanos de determinado território. A Banana de Corupá recebeu o registro em 28 de agosto de 2018.

Quais municípios fazem parte da Denominação de Origem?

O território reconhecido compreende Corupá, Jaraguá do Sul, Schroeder e São Bento do Sul e abrange variedades de banana do subgrupo Cavendish, popularmente conhecidas como nanica ou caturra.

Qual é a importância da banana para Corupá?

A bananicultura tem forte impacto econômico e social no município. Segundo os dados apresentados na reportagem, cerca de 600 dos aproximadamente 3,8 mil bananicultores catarinenses estão concentrados em Corupá.

Como a Banana de Corupá é utilizada além do consumo in natura?

Além da comercialização da fruta, a produção está relacionada a iniciativas de confeitaria e à fabricação de biomassa de banana verde, utilizada inclusive na alimentação escolar.


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