Bananicultores em atividade em Santa Catarina
Das terras do vale do Rio Itapocu e do sopé da Serra do Mar provém outro dos 12 produtos com Indicação Geográfica (IG) em Santa Catarina. Trata-se da banana da região de Corupá, que conquistou o registro, na modalidade Denominação de Origem, no ano de 2018, tornando-se a primeira fruta do país a obter esse nível de reconhecimento.
Foto: Ana Quinto / Agência AlescO registro compreende todas as variedades de banana do subgrupo “Cavendish” (popularmente conhecida como nanica ou caturra), produzidas nos municípios de Corupá, Jaraguá do Sul, Schroeder e São Bento do Sul. O grande diferencial do produto é o teor natural de doçura superior ao da média nacional, atributo comprovado durante o processo de averiguação técnica realizado pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).
Uma banana com características únicas
Conforme o engenheiro agrônomo Samir Paulinho Venera Junior, as particularidades do solo, relevo e clima da região, que combinam plantio em altitude, alta incidência solar e variação térmica, favorecem um maior acúmulo e transformação dos açúcares e ácidos naturais das frutas, resultando em bananas mais aromáticas e saborosas. As frutas produzidas na região também apresentam maior teor de potássio, cálcio e manganês, e menores teores de magnésio.
“Estamos a 40 quilômetros do mar e a 10 quilômetros da serra. Então, temos um clima bastante úmido e com estações bem definidas, com muito calor no verão e muito frio no inverno. Também muita amplitude térmica durante os dias. Com isso, ocorre que o período de desenvolvimento do fruto é mais longo. No Centro-Oeste do país um cacho de banana leva de 6 a 7 meses para ser produzido, enquanto aqui o período se estende de 12 a 13 meses. Por isso que a nossa banana é única e costumamos dizer que é o nosso ouro verde.”
Ficha Técnica
- Território Corupá, Jaraguá do Sul, Schroeder e São Bento do Sul.
- Cultivar Todas as variedades de banana do subgrupo “Cavendish” (popularmente conhecidas como nanica ou caturra).
- Condições de Cultivo Plantio em altitude com variação térmica. O clima prolonga o período de desenvolvimento do fruto para 12 a 13 meses.
- Perfil do Fruto Aromática, saborosa e com teor natural de doçura superior à média nacional. Elevado teor de potássio, cálcio e manganês.
O caminho até a Indicação Geográfica
A conquista da Indicação Geográfica foi articulada pela Associação dos Bananicultores da Região de Corupá (Asbanco), que representou 350 produtores e coordenou a articulação necessária para comprovar as características que diferenciam o produto e sua relação com o território.
O pedido de registro foi protocolado pela entidade junto ao INPI em agosto de 2016. Para reunir os estudos e documentos exigidos, a associação contou com a participação de instituições como a Epagri, Sebrae e Universidade Federal de Santa Catarina.
O trabalho envolveu pesquisas sobre as condições naturais da região, as características da fruta e os métodos empregados pelos produtores. Entre os diferenciais identificados esteve o elevado teor de açúcares da banana produzida em Corupá, associado às condições de clima, solo e relevo do território.
Além da articulação para o reconhecimento, a Asbanco participou da definição das normas de produção e dos mecanismos de controle necessários para garantir a origem e a qualidade do produto. A entidade também passou a atuar na gestão e na promoção da Indicação Geográfica.
Em 28 de agosto de 2018, o INPI concedeu à banana de Corupá o registro de Denominação de Origem (DO), modalidade de Indicação Geográfica que reconhece produtos cujas características ou qualidades estão diretamente relacionadas aos fatores naturais e humanos de uma determinada região.
Reconhecimento e orgulho
O presidente da Asbanco, Olisses Jantsch, aponta o selo como uma verdadeira conquista para o setor.
“Para nós, esta é uma marca muito importante, a qual ainda não conseguimos nem mensurar a dimensão, pois além de agregar valor à produção local, também nos diferencia no mercado, pois agora temos um produto único, que não se encontra em nenhum outro lugar no mundo.”
Para Eliane Cristina Müller, diretora da Asbanco e gestora do projeto da IG, o registro é também um grande apoio à economia local, sobretudo para o município de Corupá.
“Temos cerca de 16 mil habitantes e aqui a atividade envolve cerca de 3 mil pessoas. Então, quando o comércio da banana vai bem, a nossa economia vai bem e o contrário também acontece.”
Outro aspecto destacado por ela é o impacto da Indicação Geográfica na autoestima da comunidade local.
“A banana é uma fruta que sempre foi desvalorizada e que carrega até mesmo uma carga pejorativa. Quando um produto está em liquidação, é comum se dizer que está a preço de banana. E nós, produtores, sempre nos sentimos muito incomodados por isso, porque, querendo ou não, o que sabemos fazer de melhor é produzir banana, que já tem uma tradição de 116 anos na região. E o nosso sonho era que a nossa fruta fosse considerada um produto nobre, como a fisális e o morango. Por isso, trabalhamos com a IG e, para a gente, obtê-lo foi o resgate do orgulho de saber que produzimos a banana mais doce do Brasil e do mundo.”
Uma atividade que movimenta a economia
De acordo com a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), o estado conta atualmente com aproximadamente 3.800 bananicultores, dos quais cerca de 600 concentram-se no município de Corupá.
Entre eles, está o próprio pai de Eliane, Conrado Urbano Müller, de 71 anos. Em seus 25 hectares de terras, ele produz cerca de 800 mil kg de bananas por ano, sendo 80% da variedade nanica, contribuindo para que Corupá siga como terceiro maior polo produtor da fruta no país. No ano de 2002 o município também foi reconhecido oficialmente, por meio da Lei Estadual 12.472, como Capital Catarinense da Banana.
Conrado Urbano Mülle e Eliane Cristina Müller.
Foto: Ana Quinto / Agência Alesc
Para Conrado, a obtenção do registro é o reconhecimento do trabalho realizado há gerações pelos produtores locais e projeta a qualidade da fruta para além da região.
“Este selo de qualidade vem reconhecer o trabalho realizado aqui. Temos um terreno diferenciado, montanhoso, com altitude e ótima qualidade do ar, características que contribuem para uma banana diferenciada. Por isso, sem dúvida nenhuma, é um grande orgulho para nós. Sabemos que essa Indicação Geográfica ultrapassa as fronteiras do Brasil e alcança também o mercado internacional.”
Desses produtores concentram-se no município de Corupá
Quilos de banana produzidos por ano na propriedade de Conrado
Posição de Corupá como o maior polo produtor da fruta no país
Da lavoura para a mesa
Atualmente, a banana de Corupá é comercializada principalmente no mercado nacional, sobretudo em território catarinense, mas também para São Paulo e estados do sul do país. Uma parcela menor, cerca de 10%, também é destinada à exportação, principalmente para Argentina e Uruguai.
A economia em torno da banana de Corupá, entretanto, vai muito além do consumo in natura, com outras iniciativas sendo adotadas, de forma individual ou coletiva, por entidades e pelo poder público local, visando ampliar as possibilidades de aproveitamento e agregação de valor ao produto.
Um exemplo é dado pela moradora de Corupá Valéria Millnitz Wantowski. Filha de bananicultores e casada com um produtor local, ela atualmente também se dedica a promover a utilização da banana na confeitaria, por meio do preparo de receitas como bolos, cucas e outros produtos artesanais.
Em 2023, uma criação sua conquistou o 1º lugar na categoria Bolos de Banana em um tradicional concurso gastronômico realizado no município, com a receita sendo selecionada para a publicação de um livro. “A banana hoje é a nossa riqueza, é o que sustenta a gente. Vivemos nossa vida a partir dela”, resume.
Outra iniciativa de destaque é a criação da biomassa, obtida a partir do cozimento do fruto verde.
Desde 2018 a prefeitura de Corupá formalizou um acordo com uma cooperativa de produtores familiares para a incorporação do produto à merenda escolar, atendendo cerca de 2,5 mil estudantes da educação infantil do município.
Conforme o nutricionista Irineu Ferreira de Matos Júnior, que atende a cooperativa de bananicultores, a biomassa é um alimento muito versátil, que não agrega sabor nem cor ao alimento, podendo ser adicionada a praticamente todas as preparações, desde o feijão, para ajudar a engrossar o caldo, até pratos como estrogonofe, além de pães, cucas, bolos e bolachas.
Entre as suas principais propriedades, entretanto, está a melhoria do valor nutricional da alimentação.
“A biomassa é rica em vitaminas do complexo B, vitamina C, fósforo, potássio, magnésio. Também é rica em amido resistente, um tipo de fibra que trabalha no nosso intestino e isso funciona como um prebiótico. Então, ela é excelente para a saúde, pois ajuda a regular o colesterol e também a glicemia sanguínea.”
Outros municípios, como Jaraguá do Sul, Guaramirim, Schroeder, Ibirama, Joinville, além da Regional de Educação de Joinville, também seguiram a iniciativa e a cada mês a cooperativa em questão produz entre 600 e 700 kg de biomassa, que são incorporados em 40 mil pães e 1,8 mil kg de bolachas.
Edgar Heil Woiciekowski, que atua como presidente do empreendimento, credita o desempenho à conquista para a banana de Corupá do registro de Indicação Geográfica.
“A cooperativa consegue agregar valor para o produto e automaticamente conseguimos promover um repasse de renda aos produtores locais. E isso só foi possível por meio da IG, que aumentou muito a visibilidade do produto e fez com que aumentasse significativamente sua procura. Com base nisso, acredito que ainda há um bom caminho a ser percorrido. Bons frutos vão aparecer.”
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Repórter: Alexandre Back / Agência ALESC
Design: Milene Conci / Agência ALESC
ALESC EXPLICA
As condições de solo, relevo e clima da região contribuem para características próprias da fruta. A Banana de Corupá apresenta teor natural de doçura superior à média nacional, além de características relacionadas ao aroma, sabor e composição mineral.
É uma modalidade de Indicação Geográfica concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) a produtos cujas características ou qualidades estão diretamente relacionadas aos fatores naturais e humanos de determinado território. A Banana de Corupá recebeu o registro em 28 de agosto de 2018.
O território reconhecido compreende Corupá, Jaraguá do Sul, Schroeder e São Bento do Sul e abrange variedades de banana do subgrupo Cavendish, popularmente conhecidas como nanica ou caturra.
A bananicultura tem forte impacto econômico e social no município. Segundo os dados apresentados na reportagem, cerca de 600 dos aproximadamente 3,8 mil bananicultores catarinenses estão concentrados em Corupá.
Além da comercialização da fruta, a produção está relacionada a iniciativas de confeitaria e à fabricação de biomassa de banana verde, utilizada inclusive na alimentação escolar.