A maçã que encontrou na Serra Catarinense o lugar para se tornar única


19/10/2026 - 08h00min

A maçã que encontrou na Serra Catarinense o lugar para se tornar única

Imagine uma torta dourada saindo do forno, com massa crocante, creme delicado, maçãs caramelizadas e o perfume das especiarias tomando conta do ambiente. Ou um croissant amanteigado recheado com creme de amêndoas e fatias de maçã recém-colhida. Há quem prefira uma geleia artesanal, um suco fresco ou simplesmente a fruta colhida do pé, crocante e suculenta.

Independentemente da forma como chega à mesa, toda Maçã Fuji de São Joaquim percorre uma longa jornada. Um caminho construído por mãos cuidadosas, conhecimento transmitido entre gerações e um clima que a natureza reservou a poucos lugares do mundo.

A maçã vermelha que enche os olhos nas prateleiras dos supermercados carrega muito mais do que sabor. Carrega a história de famílias, pesquisadores, cooperativas e de uma região que encontrou na altitude e no frio as condições ideais para produzir uma fruta reconhecida entre as melhores do país.

Quem chega a São Joaquim logo percebe que ela está em toda parte. Desenha a paisagem dos pomares, movimenta a economia, inspira novos empreendimentos, atrai turistas e faz parte da vida de milhares de famílias.

Esse reconhecimento ultrapassou as fronteiras da Serra em 2021, quando a Maçã Fuji produzida na região conquistou a Denominação de Origem (DO), selo de Indicação Geográfica concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

Maçã Fuji da Região de São Joaquim

Esse reconhecimento ultrapassou as fronteiras da Serra em 2021, quando a Maçã Fuji produzida na região conquistou a Denominação de Origem (DO), selo de Indicação Geográfica concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

Foto: Daniel Conzi/Agência Alesc

A certificação, no entanto, apenas oficializou uma história iniciada décadas antes, quando as primeiras mudas vindas do Japão encontraram na altitude, no frio intenso e no conhecimento dos produtores as condições ideais para revelar todo o seu potencial.

Um legado cultivado entre gerações

Quem conhece essa história de perto é a produtora Sheila Forgerini Zanete. Depois de deixar a vida pública, ela decidiu voltar às origens para trabalhar ao lado do pai, dando continuidade a um legado construído entre os pomares de São Joaquim.

Ao falar da fruta, o conhecimento técnico rapidamente dá lugar à emoção. “Para mim é tudo. Meu pai foi criado dentro de um pomar. Hoje eu trabalho ao lado dele e estou criando meus filhos com essa preciosidade que temos aqui em Santa Catarina.”

Para Sheila, o frio e a altitude fazem a diferença, mas não explicam tudo. A fruta só alcança a qualidade que a tornou referência nacional porque há décadas de aprendizado, aperfeiçoamento e dedicação dos produtores.

Nos pomares acima dos 1.100 metros de altitude, a Fuji amadurece lentamente. O frio prolongado concentra açúcares, intensifica a coloração vermelha, garante maior crocância e preserva a firmeza da polpa — características que ajudaram São Joaquim a conquistar a Denominação de Origem.

Quando a tradição inspira novos sabores

A maçã não transformou apenas a agricultura. Ela abriu espaço para novos negócios e experiências gastronômicas.

Foi apostando nesse potencial que Mariane Melo e Juliano Magrini criaram uma confeitaria artesanal no município de São Joaquim. No cardápio, a fruta aparece em diferentes versões: uma torta preparada com massa amanteigada, creme pâtissier, maçãs cozidas lentamente com especiarias e finalizada com caramelo salgado; croissants recheados com creme de amêndoas; além de outras sobremesas que fazem dela a protagonista.

Mais do que vender doces, o casal decidiu oferecer aos visitantes uma forma diferente de conhecer São Joaquim. “A maçã representa a cidade. Então ela precisava estar no nosso cardápio.” Mariane conta que muitos clientes chegam em busca de uma sobremesa, mas saem levando uma lembrança. “Hoje eles não procuram apenas uma sobremesa. Procuram uma experiência.”

Produção da maçã fuji

Produção da maçã fuji

Foto: Jeferson Baldo/Agência Alesc

O empreendimento também mostra como a fruta multiplica oportunidades. Além dos pomares, movimenta cafeterias, confeitarias, agroindústrias, turismo rural e pequenos negócios que encontram nela uma forma de inovar sem se distanciar das raízes serranas.

O cuidado que acompanha cada fruto

Selo Denominação de Origem Maçã Fuji de São Joaquim

Ficha Técnica
Maçã Fuji

Denominação de Origem (2021)
  • Território Região de São Joaquim, na Serra Catarinense, com pomares cultivados em altitudes superiores a 1.100 metros.
  • Fatores Climáticos O frio prolongado e a altitude garantem o amadurecimento lento, concentrando açúcares e intensificando a coloração.
  • Perfil da Fruta Coloração vermelha intensa, elevada crocância, polpa firme e suculenta, com sabor doce e marcante.
  • Reconhecimento Certificada pelo INPI com a Denominação de Origem em 2021 e declarada Patrimônio Cultural de SC em 2026 (Lei 19.800).

Depois de encantar moradores e turistas, a maçã inicia outra etapa da viagem. Em uma cooperativa dedicada à produção e beneficiamento do fruto, também localizada em São Joaquim, cada maçã passa por um rigoroso processo de classificação antes de seguir para supermercados de todas as regiões do Brasil e, em anos de maior produção, para o mercado internacional.

Embora a tecnologia esteja presente no armazenamento e na conservação, o olhar humano continua indispensável. “O processo começa no campo”, explica Anderson Sonara, responsável técnico pela cooperativa. “A tecnologia ajuda, mas o cuidado continua sendo essencial.”

Anderson Sonara, responsável técnico pela cooperativa.

Anderson Sonara, responsável técnico pela cooperativa.

Foto: Jeferson Baldo/Agência Alesc

Na linha de seleção, centenas de mulheres e homens analisam cuidadosamente cada fruto. Um trabalho delicado para garantir que as melhores maçãs cheguem ao consumidor.

Para Anderson, não há definição melhor para a relação entre São Joaquim e a fruta: “A cidade respira maçã.”

Patrimônio da Serra Catarinense

Hoje, milhares de famílias vivem da produção de maçãs na Serra Catarinense. A cultura movimenta a economia, fortalece a agricultura familiar, gera milhares de empregos diretos e temporários e incentiva a permanência das novas gerações no campo.

Em 2026, esse legado recebeu mais um reconhecimento. A Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou a Lei 19.800, que declarou a Produção e Colheita da Maçã Catarinense integrante do Patrimônio Cultural do Estado, valorizando a importância histórica, econômica e social da atividade.

Em São Joaquim, a história iniciada há décadas continua sendo escrita a cada safra. Nas mãos de quem cultiva, seleciona, transforma e apresenta a fruta ao mundo, a maçã segue amadurecendo junto com novas gerações — vermelha, crocante e carregando em cada fruto um pedaço da Serra Catarinense.

Mapa das Indicações Geográficas em SC

Explore o roteiro dos produtos certificados pelas seis regiões catarinenses.

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Roteiro ALESC — ordem de publicação das matérias, ligadas pelo caminho mais curto entre as cidades.

Repórter: Simone Sartori/Agência Alesc

Design: Milene Conci/Agência Alesc


ALESC EXPLICA

O que é a Maçã Fuji de São Joaquim?

É a maçã da variedade Fuji produzida na região de São Joaquim, na Serra Catarinense, que conquistou a Denominação de Origem em 2021.

O que significa Denominação de Origem?

É uma modalidade de Indicação Geográfica que reconhece produtos cujas qualidades ou características estão vinculadas essencial ou exclusivamente ao meio geográfico, incluindo fatores naturais e humanos.

Por que São Joaquim oferece condições especiais para a produção?

Segundo a reportagem, a altitude superior a 1.100 metros em determinados pomares e o frio prolongado favorecem o amadurecimento lento, a coloração, a crocância e a firmeza da fruta.

Como a maçã contribui para a economia local?

A produção movimenta pomares, cooperativas, agroindústrias, confeitarias, cafeterias, turismo rural e outros empreendimentos da região.

Qual foi o reconhecimento concedido pela Alesc em 2026?

A Lei 19.800 declarou a Produção e Colheita da Maçã Catarinense integrante do Patrimônio Cultural do Estado, conforme a reportagem.

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