Mais de um século de história, saberes transmitidos entre gerações e uma tradição que movimenta a economia local. Em Luiz Alves, a produção artesanal de cachaça faz parte da identidade do município e ganhou, em 2024, um novo reconhecimento: a Indicação Geográfica (IG), concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Foto: Ana Quinto/Agência AlescA trajetória começou no início do século XX, quando famílias ligadas à produção de açúcar mascavo e melado passaram a aproveitar o excedente da cana-de-açúcar para fabricar aguardente. Com registros desde 1916, a atividade atravessou gerações e ajudou a consolidar o município como a Capital Catarinense da Cachaça, título reconhecido por lei estadual.
Segundo a Associação dos Produtores de Cachaça Artesanal de Luiz Alves (APCALA), a produção chega a cerca de um milhão de litros por ano. Por trás desse volume estão agricultores, famílias e empreendedores que mantêm viva a tradição e fazem dela uma importante fonte de renda para a região.
Tradição entre gerações
No alambique da família Van Den Bylaardt, a trajetória começou na década de 1940. O proprietário, Márcio Rogério Van Den Bylaardt, conta que seu avô transportava produtos de Luiz Alves para Itajaí quando percebeu a procura pela cachaça produzida no município. “Ele viu que teria que montar o próprio alambique e começou a produzir”, relata.
A tradição foi preservada entre gerações, mas também ganhou novos conhecimentos. Na década de 1970, o pai de Márcio introduziu o envelhecimento em barricas de carvalho, unindo tradição e aprimoramento da bebida.
Produção da cachaça no alambique.
Foto: Ana Quinto/Agência Alesc
O trabalho começa no canavial
A produção começa no cultivo e na seleção da matéria-prima. O alambique mantém 30 hectares de cultivo próprio e acompanha todas as etapas, do plantio à colheita.
Segundo Márcio, proprietário do alambique, o trabalho no canavial começa por volta das 6h30, com a colheita manual de aproximadamente 300 quilos de cana por dia. Ele explica que essa etapa faz toda a diferença na qualidade do produto, pois permite selecionar apenas a parte mais nobre da cana, enquanto o uso de máquinas acaba incluindo outras partes da planta no processo.
O papel da fermentação
Após a moagem, o caldo da cana segue para a fermentação. Uma das particularidades da cachaça de Luiz Alves é o uso de leveduras nativas da região, preservadas e utilizadas há muitos anos.
Esses microrganismos transformam os açúcares do caldo em álcool e contribuem para os aromas e sabores da bebida. “A gente tem a nossa levedura nativa da região. Ela faz essa transformação do açúcar e ajuda a tornar o produto diferente”, afirma Márcio.
Durante os estudos para a obtenção da Indicação Geográfica, foram identificadas características semelhantes nas leveduras utilizadas por diferentes alambiques. Esse fator, associado ao clima, à cana-de-açúcar e aos conhecimentos locais, ajuda a explicar a identidade da bebida.
Precisão na destilação
Após a fermentação, o líquido segue para a destilação em alambiques de cobre. No alambique da família Van Den Bylaardt, o processo é dividido em três frações: cabeça, coração e cauda. As frações inicial e final são descartadas, enquanto o coração, considerado a parte mais nobre da destilação, é aproveitado na produção da cachaça.
Segundo a colaboradora do alambique, Graziele Tesch Becker, essa separação é fundamental para assegurar a qualidade da bebida.
Após a destilação, a cachaça pode ser armazenada em tanques ou seguir para os barris. O contato com a madeira e o tempo de envelhecimento conferem diferentes aromas, sabores e tonalidades. “Quanto mais tempo no barril, mais o produto vai se transformando”, afirma o proprietário.
O alambique também preserva a produção da cachaça de melado, receita herdada dos antepassados. “É uma tradição que vem dos nossos avós. A cachaça de melado resulta em uma bebida menos ácida, mais equilibrada e mais leve”, explica Márcio.
O caminho até a Indicação Geográfica
Ficha Técnica
Cachaça Luiz Alves
- Território Município de Luiz Alves, no Vale do Itajaí, reconhecido por lei estadual como a Capital Catarinense da Cachaça.
- Matéria-Prima & Fermentação Cana-de-açúcar com colheita manual selecionada e fermentação enriquecida por leveduras nativas da região.
- Método de Produção Destilação artesanal em alambiques de cobre (fração “coração”), envelhecimento em barris de carvalho e produção de cachaça de melado.
- Reconhecimento & Escala Indicação Geográfica (IG) concedida pelo INPI em 2024 e produção anual estimada em cerca de 1 milhão de litros.
Para identificar as características que diferenciam a cachaça de Luiz Alves, os estudos consideraram todas as etapas da produção, incluindo o canavial, o clima, a matéria-prima, as leveduras nativas e os métodos utilizados pelos produtores. “Foi avaliado todo o processo: o canavial, o clima, a cana e a levedura. É todo o processo de Luiz Alves”, ressalta Márcio.
A Indicação Geográfica identifica a procedência do produto e estabelece critérios de produção, controle e rastreabilidade. Para utilizar o selo, os produtores precisam cumprir as regras definidas e comprovar a relação entre a bebida, suas características e o território. “Quando o consumidor vê uma cachaça com o selo de Indicação Geográfica, sabe que o produto passou por todo esse processo e por essa rastreabilidade”, afirma.
Mais do que certificar a procedência, a IG reconhece uma identidade construída coletivamente por produtores, trabalhadores e famílias que mantêm viva a tradição da cachaça artesanal.
Reconhecimento dentro e fora do país

Armazenamento da produção de cachaça.
Foto: Ana Quinto/Agência Alesc
A qualidade da produção também se reflete nas premiações. Uma das bebidas do alambique da família Van Den Bylaardt, envelhecida durante 18 anos, já recebeu mais de 12 prêmios nacionais e internacionais e foi eleita a melhor cachaça do Brasil. “A nossa satisfação é estar se destacando no cenário nacional. Santa Catarina hoje se destaca muito pela qualidade do produto. A gente faz algo diferente”, conclui Márcio.
Da seleção manual no canavial ao envelhecimento em barricas, cada etapa ajuda a explicar a identidade da cachaça de Luiz Alves.
Mais de um século depois dos primeiros registros da produção artesanal, a Indicação Geográfica acrescenta um novo capítulo a essa história, fortalecendo a economia regional e levando o nome de Luiz Alves e de Santa Catarina para além das fronteiras do estado.
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Repórter: Tatiani Magalhães/Agência Alesc
Design: Milene Conci/Agência Alesc
ALESC EXPLICA
É um reconhecimento concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), em 2024, que identifica a relação entre a produção da cachaça e o território de Luiz Alves.
Segundo a reportagem, a atividade começou no início do século XX, quando famílias que produziam açúcar mascavo e melado passaram a aproveitar o excedente da cana-de-açúcar para fabricar aguardente. Há registros desde 1916.
A reportagem destaca o cultivo da cana, as condições climáticas, o conhecimento dos produtores, as leveduras nativas e os métodos tradicionais de fabricação.
As leveduras transformam os açúcares do caldo da cana em álcool e contribuem para os aromas e sabores da bebida.
No alambique apresentado na reportagem, o processo é dividido em três frações: cabeça, coração e cauda. A fração denominada coração é aproveitada na produção da cachaça.
Conforme a reportagem, o selo está associado ao cumprimento de regras de produção, controle e rastreabilidade, que permitem identificar a procedência do produto.