Entre vinhedos e gerações, a história da uva Goethe


21/09/2026 - 15h25min

Entre vinhedos e gerações, a história da uva Goethe

Foto: Daniel Conzi / Agência Alesc

Antes de o vinho chegar à taça, existe uma história que começa no parreiral. No Sul de Santa Catarina, ela foi construída ao longo de quase 150 anos pelas mãos de famílias que trouxeram da Itália o cultivo da videira e o hábito de transformar uvas em vinho.

Entre as variedades que encontraram no território condições para prosperar, uma ganhou identidade própria: a Goethe.

Cacho de uva

Introduzida ainda no período da colonização, a variedade adaptou-se ao solo, ao clima e ao relevo dos Vales do Sul catarinense e foi aperfeiçoada ao longo das gerações. Essa relação entre variedade, território e saber fazer resultou, em 2011, na primeira Indicação Geográfica de Santa Catarina, na modalidade Indicação de Procedência.

Fonte: Epagri/Reprodução

Em 2025, a região conquistou a Denominação de Origem, reconhecimento que atesta a relação entre as características dos vinhos e as condições naturais e humanas do território.

Entre os personagens dessa trajetória está o produtor Genésio Mazon. No início dos anos 1980, ele trouxe do Chile mudas de Cabernet Sauvignon e Merlot, em uma iniciativa para diversificar a produção regional. As primeiras experiências não tiveram o resultado esperado, mas ajudaram a abrir caminho para uma nova fase da vitivinicultura.

Hoje, a Vinícola Mazon é administrada por Giselda Mazon e pela filha, Patrícia Amazonon Freitas. A Goethe permanece como principal expressão da identidade da propriedade. Presidente da Associação dos Produtores da Uva e do Vinho Goethe (ProGoethe), Patrícia acompanha o trabalho de valorização do cultivo, que, segundo ela, representa um patrimônio histórico e cultural construído pelas famílias descendentes dos imigrantes italianos.

Patrícia Mazon, administradora da Vinícola Mazon.

Patrícia Mazon, administradora da Vinícola Mazon.

Foto: Daniel Conzi / Agência Alesc

Resultado do cruzamento entre a Moscato de Hamburgo e a híbrida Carter, a Goethe apresenta predominância genética de uvas viníferas e origina vinhos leves, aromáticos e de identidade marcante.

Uma tradição que voltou a florescer

A força da Goethe hoje contrasta com períodos de dificuldade. A partir das décadas de 1950 e 1960, a expansão da mineração de carvão mudou a dinâmica econômica do Sul catarinense. Muitas famílias abandonaram os parreirais e a produção perdeu espaço.

A cultura da videira, porém, permaneceu na memória da comunidade. A retomada começou quando produtores e pesquisadores perceberam que era possível recuperar uma vocação histórica. “Durante muitos anos, a nossa tradição ficou adormecida. Diferentemente da Serra Gaúcha, nós tivemos uma ruptura nesse processo.”

A família de Patrícia também buscou novos caminhos. Seu pai investiu durante mais de três décadas em variedades francesas, como Merlot e Cabernet Franc, com mudas trazidas do Chile e da França, mas o projeto não avançou. “Ele tentou produzir durante 34 anos e acabou desistindo.”

A experiência reforçou a necessidade de diversificar a produção agrícola local, historicamente dependente da fumicultura. “Havia a preocupação de fortalecer a fruticultura para combater a monocultura do fumo, que não é sustentável para pequenas propriedades como a nossa.”

Foi nesse contexto que pesquisadores da Epagri voltaram a investigar o potencial da Goethe. O conhecimento técnico, aliado ao interesse dos produtores, ajudou a recolocar a variedade no centro da vitivinicultura regional.

“Os primeiros a investirem foram os próprios pesquisadores da Epagri, que tinham acesso às informações. Depois vieram produtores como Dilor Freitas, que também tinha conhecimento e capital para investir. Foi aí que essa vocação voltou a florescer.”

Criada em 2005, a ProGoethe passou a reunir produtores, vinícolas familiares, artesanais e profissionais ligados à assistência técnica. Hoje, oito vinícolas familiares integram a associação. “Somos oito vinícolas familiares que não conseguem investir um capital elevado na gestão da associação. Por isso, todos acabam fazendo um pouco de tudo.”

Para Patrícia, a força da Goethe está na ligação com o território. “Os Vales da Uva Goethe representam uma tradição de 150 anos.”

O reconhecimento por meio da Indicação Geográfica e, posteriormente, da Denominação de Origem, ajudou a devolver visibilidade à região.


“Enquanto outras regiões evoluíam, nós ficávamos apagados. A Indicação Geográfica e, depois, a Denominação de Origem nos colocaram novamente no mapa da vitivinicultura.”

Uma uva moldada pelo território

O resgate da Goethe também passou pela pesquisa. Para o enólogo da Epagri na Estação Experimental de Urussanga, Stevan Grützmann Arcari, valorizar a relação entre a variedade e o território foi fundamental para evitar o desaparecimento de um produto de forte ligação histórica e cultural.

“Aquele momento foi decisivo. O vinho Goethe estava muito próximo de desaparecer. Era um mercado mais exigente, com muita concorrência, e o produto vinha perdendo notoriedade.”

Estudos sobre a região, a planta e as características do vinho ajudaram a comprovar essa identidade.
Desenvolvida nos Estados Unidos a partir do cruzamento entre a Moscato de Hamburgo e a Carter, a Goethe chegou ao Sul catarinense com outras culturas trazidas pelos imigrantes italianos.

Entre as variedades testadas, foi a que apresentou uma adaptação especial ao território.

“Ela foi a primeira uva capaz de produzir um vinho cujo sabor lembrava aquele consumido pelos colonizadores no norte da Itália. Costumamos dizer que foi paixão ao primeiro gole.”
Stevan Grutzmann Arcari Enólogo e pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri/SC)

Embora cultivada em outros locais, foi nos Vales da Uva Goethe que a variedade desenvolveu características particulares. “A Denominação de Origem comprova que esse é um produto típico do território, resultado da interação entre o clima, o solo, a geografia e a cultura das pessoas que vivem aqui.”

Características que revelam uma identidade

A Goethe exige atenção dos produtores, principalmente durante a maturação, quando fica mais sensível às condições climáticas. “É uma uva que exige muito cuidado no cultivo.”

A variedade origina vinhos de coloração entre o amarelo-claro e o dourado, com aromas frutados e florais e acidez marcante. Permite a elaboração de vinhos leves e refrescantes, além de frisantes e espumantes.

Variações de solo, relevo e microclima também produzem nuances próprias em cada safra e propriedade. “Cada safra, cada vinhedo, cada produtor e até cada tanque pode apresentar nuances diferentes.”
Para Arcari, essa combinação define a singularidade da variedade. “O vinho Goethe é único, original, típico e raro.”

Selo Indicação de Origem Uva Goethe

Ficha Técnica

Indicação de Procedência (2011) Denominação de Origem (2025)
  • Território Vales do Sul catarinense. Perfeita adaptação ao solo, clima e relevo locais.
  • Genética Cruzamento entre a Moscato de Hamburgo e a híbrida Carter, com predominância genética de uvas viníferas.
  • Cultivo Exige cuidado na maturação. Apelidada de “uva do quilômetro zero” pela rápida oxidação, necessitando processamento rápido.
  • Perfil do Vinho Coloração amarelo-claro a dourado. Aromas frutados e florais. Origina vinhos leves, refrescantes e espumantes.

Uma história que continua entre gerações

A história da Vinícola Trevisol se confunde com a trajetória da família que mantém viva a tradição da Goethe há mais de um século. As raízes remontam a 1881, quando os bisavós de Gilmar Trevisol chegaram à comunidade de Rio Caeté, em Urussanga, trazendo o cultivo da videira e o hábito de produzir vinho.

Família Trevisol, administradores da Vinícola Trevisol.

Família Trevisol, administradores da Vinícola Trevisol.

Foto: Daniel Conzi / Agência Alesc

Hoje, a propriedade está nas mãos da quarta geração e já conta com a participação da quinta. Para Gilmar, acompanhar os filhos na rotina da vinícola é uma forma de garantir a continuidade da história familiar.

“É uma realização ver eles participando e demonstrando interesse em seguir esse caminho.”
Gilmar dedica-se à produção dos vinhos, enquanto a esposa, Edia Machado dos Santos Trevisol, concilia a profissão de professora com o enoturismo. Nos fins de semana, recebe visitantes e conduz experiências gastronômicas que resgatam sabores e costumes da cultura italiana.

A ideia de abrir a propriedade ao público ganhou força em 2020, durante a pandemia, quando Edia passou a permanecer mais tempo no local por causa do ensino híbrido. A partir de 2021, após consultorias e capacitações, começaram as degustações harmonizadas com queijos, salames e outros produtos da agricultura familiar. Depois vieram piqueniques, cafés da roça, almoços típicos e a recepção de grupos maiores.

Na produção, a própria característica da Goethe impõe desafios. Como a uva oxida rapidamente, precisa ser colhida, processada e encaminhada à vinificação no mesmo dia. Daí surgiu entre os produtores o apelido de “uva do quilômetro zero”, em referência à necessidade de manter o processamento próximo aos vinhedos.

A relação da família com o vinho vai além da produção. Para Gilmar, a bebida carrega lembranças da infância e dos momentos vividos ao lado do avô. “O vinho tem sabor de infância.”

Para Edia, a transformação da propriedade representa uma nova etapa da história familiar.
O enoturismo abriu novos caminhos para a família. O filho do casal, Miguel, já participa das atividades e projeta o futuro da vinícola, com o desejo de ampliar o alcance dos vinhos Trevisol e levar a história da família para além da região. Para Gilmar e Edia, ver os filhos envolvidos é a confirmação de que a tradição iniciada pelos bisavós continua viva.

Mais do que produzir vinho, a família Trevisol preserva uma herança construída com trabalho, memória e pertencimento. Uma história que começou com os imigrantes italianos, encontrou na uva Goethe uma identidade própria e segue sendo escrita, geração após geração.

Mapa das Indicações Geográficas em SC

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Repórter: Tatiani Magalhães / Agência ALESC

Design: Milene Conci / Agência ALESC


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